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Posse de Lula em 5 de janeiro aquece setor hoteleiro da capital

O setor no Distrito Federal espera 100% de ocupação para o 5 de janeiro de 2027. Alteração da data favorece economia por não chocar com o réveillon. Em contrapartida, turistas lamentam alto custo da viagem. Gerentes e especialistas comentam

04/11/2026 às 09h25
Por: João Araújo Fonte: Notícia Certa
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Posse de Lula em 5 de janeiro aquece setor hoteleiro da capital

Pela primeira vez, a posse presidencial vai ocorrer em 5 de janeiro, e não mais no dia 1º, como era de praxe até as últimas eleições. A alteração da data tem favorecido o setor hoteleiro, que espera 100% de ocupação em todos os hotéis da região central.

O presidente da Associação Brasileira da Indústria de Hotéis do Distrito Federal (ABIH-DF), Henrique Severien, avalia que a mudança foi positiva. "A demanda chegou com mais antecedência. Além disso, a nova data permite uma adesão maior, uma vez que foge do conflito com o réveillon", explica. "Somente na semana após o segundo turno foram feitas 150 reservas no Ibis Style Aeroporto, por exemplo", completa.

A gerente geral do Gran Mercure, Adriana Pinto, comenta que a demanda teve um expressivo aumento de buscas para janeiro. A expectativa é alta para que haja ocupação completa de todos os quartos. "Para os dias 4 e 5, já estamos perto de 90% de ocupação. Com certeza ficará com 100% e negaremos reservas", afirmou. Ela também confirma que os quartos mais em conta esgotaram primeiro, sobrando as suítes mais caras. 

A busca por quartos também foi uma surpresa para Fernando Kanbara, gerente geral do B Hotel. Ele conta que, analisando dados de 2025, as reservas e buscas tiveram um expressivo aumento. "De acordo com nosso histórico, podemos afirmar que a procura quadruplicou. O período de eleições e de posse naturalmente gera uma demanda diferente em Brasília e esse movimento já começou a aparecer nas reservas", afirma.

Com a movimentação turística prevista na capital, a tendência, segundo Riezo Silva, é de que Brasília terá um incremento de sua economia durante a época da posse. “Irá ter uma movimentação muito grande ligado a prestação de serviços, principalmente, porque vai unir com o réveillon”, destacou. O especialista também ressalta que a movimentação pode ser parecida com grandes shows, como o da cantora Madonna, no Rio de Janeiro, em 2024.

Para o secretário de turismo do DF, Bernardo Antunes, a capital do país tem o necessário para comportar um evento deste tamanho. “Somos uma capital segura e organizada para receber grandes eventos. Brasília está preparada para receber quem vier à capital acompanhar a posse do próximo presidente”, destaca.

Passagens mais caras

Apesar da alta expectativa com o evento, turistas de outros estados têm relatado dificuldades em reservar quartos e comprar passagens por conta do alto custo dos bilhetes. Mariana Alves, de 24 anos, conta que começou a pesquisar passagens e locais de acomodação ainda durante a apuração do segundo turno. “Minha mãe até consultou o programa de milhagens dela, e já estava bem alto, uma quantia mais fora do que a média de milhas para Brasília”, diz. Mariana também lembra que, da outra vez que veio a Brasília, pagou cerca de R$ 400 nas passagens de ida e volta, e agora, a passagem mais em conta supera a casa de R$ 1.000. 

Ainda sem uma decisão concreta se o investimento vale a pena, Mariana relata que cogitou outras opções, como hospedar-se na casa de uma amiga ou abdicar do conforto do avião para cair na estrada. “Pensamos até em fazer o trajeto de São Paulo a Brasília de carro, mas entrou em jogo o preço da hospedagem, que também está bem cara”, contou. Apesar das dificuldades que tem encontrado, ela não quer perder a oportunidade de vivenciar um momento histórico. “Ainda não desisti completamente. É um momento que queremos muito viver presencialmente. Talvez vá só, uma viagem em família já fica mais caro, mas ainda não batemos o martelo definitivamente”, acrescenta.

Apesar dos preços altos, Mariana acredita que é a lógica do mercado agindo. “Eu acho que é justificável (o preço de hospedagem e passagem). Sabemos que é assim que funciona a lei da oferta e da procura para todo grande evento”, opinou. 

Morando em Recife, Daniela Gonçalves, 27, tem estadia fixa em Brasília. Uma vez por ano, ela vem visitar a família. Antecipando sua vinda para Brasília, ela também começou a pesquisar passagens no segundo turno. Entretanto, apesar da animação, o valor da ida e volta. “A ida e volta, em um dia bom, consigo pagar R$ 800. Depois da apuração, o valor estava por R$ 2,3 mil”, diz.

Com o preço alto, ela decidiu não comprar no dia, esperando que o valor fosse diminuir. Entretanto, com o passar do tempo, as opções ficaram cada vez mais cara, inclusive voos com escala. “Olhei recentemente, alterei as datas e o valor duplicou. Encontrei viagens que chegam até R$ 5 mil. Com escala, o valor está entre R$3,5 e R$ 3,9 mil. Eu fiquei chocada”, lamenta.

Apesar de querer muito participar da posse, Daniela pensa em desistir da viagem por causa do alto custo. “Com o preço que está aparecendo, eu consigo comprar uma passagem para a Europa”, enfatiza. Ela ainda ressalta que o trecho de duas horas entre Recife e Brasília não justifica o preço. “Os valores estão exorbitantes. Tem quase 20 anos que vou visitar meu pai em Brasília e nunca vi uma passagem custar tão caro”, ressalta.

O cenário se repete para Malu Patrício, 25, e sua família. Ela sairia de São Paulo e seus parentes de Belém, aumentando ainda mais as despesas. “Estamos buscando formas de nos encontrarmos para diminuir os custos. Ainda não compramos, mas vimos que está mais caro que o normal, e talvez isso impossibilite a nossa ida”, conta.

O planejamento da família é passar quatro dias em Brasília, mas eles ainda não reservaram hotel ou confirmaram a passagem. “Com todos os integrantes, o valor passaria dos R$ 3 mil, as passagens ficariam acima de R$ 5 mil por pessoa. Estamos torcendo para os valores diminuírem em breve, em alguma promoção de Black Friday”, aposta. Com os empecilhos encontrados, Malu afirma que outros planos estão sendo traçados para tentar assistir a posse. “Estamos procurando de tudo, hospedagem fora do Plano, por exemplo, para conseguirmos presenciar esse momento tão histórico”, conclui.

Preço das hospedagens

Com a aproximação do evento, o deputado federal eleito Fábio Felix (Psol) acionou o Ministério Público do Distrito Federal (MPDFT) contra os preços de hotéis para a data da posse presidencial. Levantamento do deputado federal eleito identificou diárias de até R$ 12,5 mil e preços até 23 vezes maiores durante a posse presidencial. Trezentas e sessenta ofertas de hospedagens em plataformas como Booking.com e Airbnb identificaram expressivas diferenças entre os preços cobrados na noite da posse e na semana seguinte.

“É um absurdo que pessoas que querem vir a Brasília acompanhar a posse do presidente Lula encontrem diárias de hotéis custando mais de R$ 12 mil. O aumento da procura não pode servir de justificativa para cobranças abusivas. Queremos que o Ministério Público investigue e tome providências para proteger os consumidores”, afirma Fábio Felix.

Na representação, o deputado solicita a investigação dos critérios de formação dos preços e das justificativas econômicas para os aumentos. O documento destaca que o Código de Defesa do Consumidor proíbe a elevação de preços sem justa causa. “Brasília vai receber pessoas de todo o país para um momento importante da nossa democracia. Não podemos permitir que elas sejam prejudicadas por preços injustificáveis”, conclui o parlamentar.

Apesar da movimentação do deputado, até o presente momento não foram feitas denúncias formais junto ao Procon, somente pedidos de dados igual o solicitado. 

O preço das diárias de hotéis variam de acordo com a oferta e demanda, época do ano e eventos na localidade. Mas não pode ser praticado um aumento arbitrário e vultuoso sob pena de incorrerem práticas abusivas tipificadas no Código de Defesa do Consumidor: elevar sem justa causa o preço de serviços; e exigir do consumidor vantagem manifestamente excessiva. A orientação do órgão é que, caso os consumidores verifiquem preços muito acima dos padrões cobrados em outras datas similares, registrem denúncia no Procon para que ocorra a apuração da situação.

O presidente da ABIH-DF, Henrique Severien, explica que há diferentes categorias de hospedagem. “Existem suítes especiais, que custam caro. Estamos em um período delicado, onde reforma tributária passa a valer com alíquotas declaradas, o que onera bastante a operação”, diz.

O economista e professor universitário Riezo Silva acrescenta que a rede de hotelaria do DF ainda carece de espaços suficientes para acolher grandes públicos. “É um modelo bem parecido com a aviação. Tem alguns primeiro quartos com o preço mais acessível e, conforme a demanda vai aumentando, os preços também sobem”, pondera. 

Silva também afirma que em eventos de grandes proporções, os preços tendem a aumentar. O professor comenta que, no início, não há abuso por conta dos preços altos, mas o consumidor deve atentar-se para evitar pagar um valor abusivo. “A pessoa ainda tem opções em outros lugares mais afastados do Plano Piloto. Caso houvesse apenas opções no Plano Piloto e as pessoas detentoras de hotel colocassem preços em bem altos abusivos, como aconteceu na COP30 em Belém, no ano passado, seria viável acionar o Procon”, afirma.

Apesar de não existir um dispositivo jurídico que imponha um teto nos preços cobrados pelos donos de hotéis ou pousadas, Riezo Silva explica que o mercado segue a tendência do sistema capitalista. Entretanto, as próprias associações estabelecem limites para os preços. “O estabelecimento tem a liberdade de pedir o valor que ele quiser dentro daquilo que a gente conversou, se tiver demanda, se tiver alguém para buscar e comercializar esse leito, ele vai comercializar”, ressalta.