
Quando começou a perceber as pernas inchadas e a falta de apetite, o pedreiro Geraldo Rodrigues dos Santos, de 62 anos, não imaginava estar diante de um problema renal grave. Morador de Planaltina, ele procurou uma unidade básica de saúde e passou por exames até receber o diagnóstico que mudaria sua rotina: doença renal crônica.
Desde então, há quase 11 anos, precisa fazer hemodiálise três vezes por semana no Hospital Regional de Sobradinho (HRS). A história dele se repete na vida de milhares de pacientes atendidos pela rede pública do Distrito Federal, que tem ampliado a estrutura de nefrologia para garantir o tratamento.
Entre 2019 e 2026, o número de equipamentos de hemodiálise da Secretaria de Saúde (SES-DF) passou de 72 para 125, crescimento de cerca de 73,6%.
No mesmo período, os sistemas de osmose reversa — essenciais para garantir a qualidade da água utilizada no processo de diálise — aumentaram de 15 para 47 equipamentos, uma expansão de aproximadamente 213,3%. De 2020 a 2026, os investimentos na aquisição de equipamentos para nefrologia somaram cerca de R$ 9,6 milhões.
R$ 9,6 milhões
De acordo com a subsecretária de Atenção Integral à Saúde da SES-DF, Raquel Mesquita, a ampliação responde ao crescimento de pacientes com doença renal crônica e à necessidade de garantir tratamento contínuo. “Estima-se que em torno de 10% da população mundial têm doença renal crônica em algum estágio”, aponta. “Nós temos quase 30 mil pessoas no DF vivendo com essas condições e cerca de 3.600 pessoas que necessitam de tratamento de diálise. Vendo esses números e a sobrecarga, a Secretaria de Saúde vem atuando e trabalhando para ampliar o sistema”.
Segundo a subsecretária, a rede também passou por reformas estruturais, com renovação dos serviços de nefrologia nos hospitais regionais de Taguatinga e do Gama, além da aquisição de novas máquinas e modernização dos sistemas de tratamento de água. Com as mudanças, a capacidade de hemodiálises aumentou significativamente.
“Com essas ações, saímos de 774 sessões para 2.200”, enumera Raquel. “O aumento do número de vagas permite que mais usuários sejam reinseridos nas suas atividades. Muitos pacientes conseguem sair do ambiente hospitalar e voltar para casa, ter qualidade de vida. Afinal, é um tratamento necessário para manutenção da vida.”
Rotina de tratamento
A hemodiálise é indicada quando os rins não conseguem mais filtrar o sangue adequadamente (geralmente com função renal abaixo de 15% ou em insuficiência aguda), resultando no acúmulo tóxico de resíduos e líquidos. Os principais sintomas dessa condição incluem náuseas ou vômitos intensos, fadiga extrema, inchaço nos pés, pernas ou rosto, falta de ar, coceira intensa, confusão mental e cãibras.
No Hospital Regional de Sobradinho, pacientes participam de sessões que duram cerca de quatro horas, geralmente três vezes por semana. A enfermeira Margarida Matsumoto explica que o tratamento exige disciplina e mudanças na rotina. “É um paciente que precisa vir à unidade para diálise, fazer restrição de água, escolher determinados tipos de alimentos e seguir várias orientações; não é uma vida fácil, mas são pessoas resilientes”, relata.
A modernização dos equipamentos impactou o funcionamento do serviço. Antes da substituição, parte das máquinas tinha mais de uma década de uso e apresentava falhas frequentes, o que exigia reorganização constante da equipe.
“Antes estávamos com grandes dificuldades”, lembra Margarida. “Hoje temos 60 pacientes com vaga fixa na unidade de Sobradinho. As máquinas novas otimizaram o sistema de forma mais eficaz, organizada e sem perdas para o paciente ou para a equipe. O ganho para a comunidade é muito grande. É um dos tratamentos mais caros dentro do SUS [Sistema Único de Saúde] que, junto à Secretaria de Saúde e até clínicas conveniadas para atender uma demanda ainda maior, consegue oportunizar isso.”
Em média, o custo de uma sessão de hemodiálise na rede particular do DF pode ficar acima de R$ 300. O valor seria inacessível a pacientes como Geraldo, que também utiliza um transporte gratuito disponibilizado pelo GDF para as sessões. Quando iniciou o tratamento na rede pública, mesmo com medo, ele conta ter sido bem-amparado pela equipe do Hospital Regional de Sobradinho.
“Quando disseram o que eu tinha que enfrentar, o negócio pesou”, conta Geraldo. “As pernas balançaram.” Apesar das dificuldades e das limitações impostas pelo tratamento, ele reconhece que o atendimento recebido na unidade e a chegada de novos equipamentos trouxeram melhorias para a rotina. “Com as novas máquinas, melhorou 100%. Antes dava problema, às vezes tinha que esperar, remarcar. Melhorou bastante, e a equipe cuida bem direitinho da gente. Não tenho do que reclamar.”
Além da hemodiálise, a rede pública também oferece a diálise peritoneal, modalidade que pode ser feita em casa e amplia a autonomia dos pacientes que convivem com a doença renal crônica. No DF, cerca de 25% dos pacientes em diálise utilizam esse método, percentual superior à média nacional. A SES-DF também auxilia pessoas que desejam viajar para outras unidades da Federação, fazendo a interligação com unidades do SUS que possam receber o paciente e fazer a hemodiálise para manter a rotina de tratamento.