Chocante. Impressionante. Inacreditável. Absurdo. Sem noção. Palavras são pobres para expressar o que o Brasil tem assistido.
Uma escola de samba cria um enredo que enaltece um líder político no poder e pré-candidato à Presidência da República. Tudo isso ocorre em um país que sofre com a falta de escolas e hospitais. O que causa ainda mais indignação é o uso de recursos públicos para sustentar um espetáculo que, na prática, acaba sendo interpretado por muitos como promoção político-ideológica.
Não se trata aqui de defender qualquer espectro político, seja de direita ou de esquerda. A questão é mais profunda e mais séria. O que está em jogo é o uso da cultura popular como instrumento de propaganda política, em um contexto de profunda desigualdade social. Para muitos cidadãos, isso soa como uma zombaria com o povo que enfrenta diariamente a precariedade dos serviços públicos.
Se um cidadão deseja pular o Carnaval e enxerga essa festa como expressão cultural do nosso povo, que o faça. Sabemos que esse evento não reflete os princípios cristãos, mas vivemos em uma sociedade livre, na qual cada um responde por seus atos e escolhas. No entanto, utilizar essa festa como trampolim político-eleitoral beira o escárnio.
Enaltecer um governo liderado por um político que se apresenta como pré-candidato, além de gerar questionamentos éticos, provoca desconforto em pessoas que ainda valorizam a seriedade na condução da vida pública. Ao concordar com esse tipo de exposição e participar de eventos que misturam festa popular e promoção política, líderes e autoridades acabam dando um verdadeiro tiro no pé no que diz respeito à conquista de confiança da população.
O povo brasileiro, apesar das diferenças religiosas, é majoritariamente conservador em valores familiares e morais. Grande parte da sociedade repudia práticas que fogem do bom senso e da boa conduta pública.
O que torna a situação ainda mais grave é que a mesma escola de samba, além da homenagem política, apresentou uma crítica considerada por muitos como injusta e ofensiva aos conservadores, retratando-os de forma caricata e desrespeitosa. Trata-se de uma tentativa de ridicularização de um segmento expressivo da população brasileira.
Esses cidadãos, frequentemente chamados de “conservadores”, são os mesmos que trabalham, produzem, pagam impostos, sustentam suas famílias e cooperam para o desenvolvimento do país. São pessoas que, inspiradas por valores familiares e princípios éticos, contribuem para a redução de problemas sociais, evitando comportamentos que geram altos custos ao Estado na área da saúde e da assistência social.
Os valores de uma sociedade são comunicados por meio das artes populares. O que habita o inconsciente coletivo acaba se manifestando nas ruas, influenciando relacionamentos, famílias e até as estruturas de poder. Quando a arte é usada para ridicularizar grupos sociais ou instrumentalizar a fé e a cultura para fins políticos, o resultado é o aprofundamento das divisões e o enfraquecimento do respeito mútuo.
Sem combater preconceito com preconceito, fica aqui um questionamento necessário: o Brasil precisa de líderes que prezem por uma postura ética, que não favoreçam grupos específicos e que respeitem a fé e os valores das pessoas. Não é coerente desrespeitar uma parcela significativa da população e, depois, tentar conquistá-la com discursos eleitorais e promessas oportunistas.
Que a população evangélica e conservadora, conhecida por sua sabedoria e senso crítico, não caia em engodos. Não troquemos nossa consciência por benefícios de políticas sociais que, muitas vezes, se assemelham mais a estratégias de compra de apoio político do que a projetos reais de transformação social.
Sejamos criteriosos na escolha de nossos governantes. Nossa nação precisa urgentemente de novos líderes comprometidos com a ética, com o respeito às diferenças e com a capacidade de inspirar o povo a superar seus desafios e prosperar como país.
O Brasil tem potencial. O que não podemos tolerar é que a dignidade de um povo seja tratada como objeto de escárnio. Esse tipo de samba político e de zombaria cultural precisa parar.
*Ruimar Fonseca: pastor, escritor e conferencista. Graduado em Direito e Teologia e Pós graduado em Aconselhamento Contemporâneo. Presidente da Adet (Assembleia de Deus Taguatinga) e colunista do portal de notícias Agenda Capital.
