
Os alvos bombardeados na madrugada deste sábado (3) na Venezuela já estavam definidos há meses, conforme informamos no dia 10 de outubro. Faltava um componente essencial para a estratégia do governo de Donald Trump: assegurar que o ditador Nicolás Maduro pudesse ser levado algemado, como um preso comum, sem risco excessivo para os integrantes das forças especiais americanas.
Maduro era monitorado pela CIA (Agência Central de Inteligência) há bastante tempo. A operação de exfiltração do ditador e de sua mulher, Cilia Flores, foi autorizada há vários dias pelo presidente Trump.
Os integrantes do 1.º Destacamento Operacional das Forças Especiais – Delta aguardavam o momento em que tivessem razoável grau de certeza de que a ação poderia ser conduzida com sucesso e risco controlado para os militares. Esse momento chegou na madrugada deste sábado.
Do ponto de vista militar, a detenção de Maduro nessas condições era uma operação bem mais complexa do que seu simples assassinato, por exemplo. Entretanto, dos pontos de vista político, legal, psicológico e geopolítico, a captura e transporte para os Estados Unidos, para ser julgado por um tribunal americano, envolve enormes vantagens.
Trump se elegeu em 2016, e novamente em 2024, mediante a promessa de não envolver os Estados Unidos em aventuras militares de mudança de regime, que mataram 7 mil soldados americanos no Afeganistão e no Iraque e custaram US$ 6 trilhões. No início de novembro, pesquisa do YouGov para a CBS indicou que 70% dos americanos se opunham a uma intervenção militar na Venezuela. Portanto, a operação precisava ser eficaz e isenta de custos humanos e econômicos.
Deter, transportar e julgar Maduro como o suposto líder de uma organização “narcoterrorista" e não como o presidente de um país coloca a intervenção no âmbito do combate à criminalidade, e não da mudança de regime.
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Trump, nessa abordagem, apresenta-se como um presidente que está protegendo os americanos da epidemia de drogas que assola o país — embora ela seja provocada pelo consumo de fentanyl preparado no México com insumos da China, sem ligação com a Venezuela, pela qual passa 5% da cocaína colombiana destinada aos EUA.
A condição de réu de Maduro, ainda mais tendo sido exfiltrado com relativa facilidade pelas forças especiais americanas, humilha o regime bolivariano, demonstra a extraordinária capacidade militar dos Estados Unidos e serve de eloquente recado para seus adversários ao redor do mundo. Esse é o ganho psicológico e geopolítico da operação.
Do ponto de vista jurídico, a detenção e futuro julgamento de Maduro em um tribunal americano confere a toda a iniciativa uma aparência de legalidade. O objetivo se torna o cumprimento das leis americanas. Depois dos bombardeios de embarcações no Caribe e no Pacífico Oriental que deixaram 115 mortos e muitas dúvidas acerca de sua legalidade, esse é um ganho fundamental.