Sunday, 06 de September de 2026
22°

Tempo nublado

Brasília, DF

Entretenimento Teresa Cristina

Teresa Cristina estreia álbum autoral: “É como um cartaz meu”

Em primeiro álbum autoral, Teresa Cristina reúne composições acumuladas ao longo de décadas e reafirma a arte como instrumento de transformação

06/09/2026 às 20h00
Por: João Araújo Fonte: Correio Braziliense
Compartilhe:
Teresa Cristina estreia álbum autoral: “É como um cartaz meu”

Antes mesmo de ser cantora, Teresa Cristina se descobriu compositora. Desde o início da carreira, há quase 30 anos, a ideia da carioca era se lançar como artista com um álbum autoral. Ela, porém, que nunca havia se imaginado como intérprete, foi convidada para gravar um disco cantando Paulinho da Viola e, desde então, a estrada como letrista tomou um rumo diferente do imaginado.

Continua após a publicidade

Ao longo da trajetória musical, faixas escritas pela sambista fizeram parte de diferentes trabalhos, mas nunca houve um projeto 100% autoral e inédito com o material, até agora. Com produção de Pretinho da Serra e parcerias com Marisa Monte, Xande de Pilares e Moacyr Luz, Tudo que eu tenho é o primeiro registro fonográfico da vocalista com repertório integralmente original.

Continua após a publicidade

Ao Correio, Teresa revelou que a única pergunta que não sabe responder sobre o projeto é o porquê de ter levado tantos anos para fazê-lo. "São inúmeros fatores e eu não consigo ver, pelo grau de prioridade, o que me fez esperar esse tempo todo para lançar um álbum autoral. Não sei mesmo", admitiu a cantora. "Durante minha carreira, mergulhei na obra de muitos compositores e pesquisei muita coisa. Gostei de tudo que fiz, mas ficava sempre um gostinho de 'eu preciso lançar minhas músicas"', revelou a compositora.

Continua após a publicidade

Quando estreou o show Teresa Cristina canta Cartola, em 2015, a vocalista acreditava que estava embarcando em uma turnê temporária. O projeto, no entanto, ganhou vida própria e rodou o Brasil por três anos. "Aí, tive a ideia de fazer uma trilogia, porque gostei muito de me apresentar com o Carlinhos Sete Cordas, um músico excepcional e fora da curva. Fizemos Noel Rosa e Zé Keti também, e eu pensava: "Poxa, será que isso vai ser a minha vida? Se for, eu quero gravar o maior número possível de compositores para poder ter um catálogo próprio", lembrou a artista, que cita Ella Fitzgerald como inspiração.

"Mas, a cada vez que eu via um show de uma compositora, eu falava: 'Meu Deus, eu sou letrista também. Por que eu não estou me mostrando?. As pessoas não me conhecem por completo"', continuou. "Eu sentia que faltava esse lado, e isso começou a me angustiar. Foi aí que eu decidi que não deveria ficar angustiada com isso. Se eu tenho algo a mostrar, eu preciso entrar em estúdio e gravar", detalhou Teresa.

No ano passado, portanto, a carioca colocou como meta principal para 2026 fazer o disco, que foi gravado de forma independente. "Coloquei como minha prioridade. Muitas pessoas falaram que seria corrido, porque tem Copa do Mundo e eleição. Mas eu pensei: 'Dane-se'. E agora estou no meio dessa confusão toda lançando o álbum, mas com a sensação de dever cumprido", celebrou a artista.

O nome do trabalho, Tudo que eu tenho, resume o sentimento de Teresa para com o trabalho. "Todas essas músicas me definem de alguma forma. É como se fosse um cartaz meu", estabeleceu a carioca. "Tem um Brasil lá dentro que é o país que eu acredito e que me representa. Tenho algumas músicas que falam da minha fé e outras que cantam sobre o amor", adiantou a vocalista, que abre o disco com a alto astral Notícia boa.

Compositora desde o início da carreira, Teresa relembrou, durante a criação do álbum, o sentimento angustiante que tem ao escrever. "Não é uma sensação boa na hora de escrever, não é legal. Eu tenho muita dificuldade, mas sei que todos os compositores são assim. Você fica se perguntando se a música está pronta, se é isso mesmo, se as palavras são essas, se a melodia é essa…", relatou a cantora.

Yabá, parceria com Moacyr Luz que integra o disco, por exemplo, demorou 14 anos para ser finalizada, segundo a artista. "A gente fez essa música em 2012. O tempo foi passando, eu cantava a música e pensava: 'Cara, tal verso não está legal'. Até que, quando eu cheguei ao estúdio, em 2026, consegui corrigir a parte que me incomodava", contou Teresa.

Para ela, a explicação por trás do processo árduo e longo que geralmente envolve a composição é a insegurança. "A gente detona tudo que é nosso. Ainda mais eu, que sou acostumada a cantar tanta música de compositores que admiro e acho geniais. Eu não posso ter a mesma régua para mim, até porque se fosse assim, ninguém mais iria compor, não é? Já temos Chico Buarque, Candeia e Paulinho da Viola. Por que eu vou escrever algo?", refletiu a vocalista. "Mas, uma vez que a faixa é gravada, masterizada e mixada, está pronto. Não tem mais o que mexer. E eu passo dessa sensação de 'aí, o que será?' para "que alívio", afirmou.

Ao comparar o ofício de compositora com o de intérprete, Teresa disse se sentir "nua" com o lançamento do trabalho. "Quando vou interpretar a obra de alguém, estou sempre preocupada em cantar a letra certa na melodia certa. Agora, minha preocupação é como as pessoas vão reagir às minhas composições. Quando a gente lança um trabalho autoral, a impressão é de estar totalmente exposto. Essas músicas são o que eu tenho a dizer sobre mim, o país que eu vivo, a sociedade na qual estou inserida e a minha realidade", declarou a carioca.

Instrumento de transformação

Em Meu bloco, a cantora deixa claro ao que veio quando canta os versos "Meu samba não é chapa branca/Nem dá sermão/Nasceu embalado nas mãos da mulher". Teresa acredita que o trabalho dos artistas é refletir o tempo em que vivem. "Eu não consigo olhar para um quadro de injustiça e de absurdos — e ultimamente é o que a gente mais tem —, e ficar calada", expôs a vocalista. "O mundo está em um momento em que, se a gente não gritar, não disser onde nos incomoda, vai custar muito caro para a gente. Todas as conquistas que nós, mulheres, negros, sul-americanos, tivemos, sobrevivem até uma virada política", apontou.

"Ultimamente, vemos mulheres dizendo que temos que ser submissas ao marido ou que não devemos votar. Essa mulher, na verdade, é um ventríloquo. Eu não levo isso a sério, porque as nossas conquistas, a qualquer momento, podem ser retiradas. Tudo que diz direito à nossa voz e ao nosso corpo, tem um homem por trás que assinou", lamentou a artista.

Para Teresa, o Brasil de hoje sofre as consequências de uma forte onda fundamentalista. "É uma mão que empurra a gente para baixo. E eu não consigo olhar para isso e fingir que não é comigo. Não consigo achar natural. A arte tem de refletir o seu tempo, ela é um instrumento de transformação da sociedade", determinou a carioca, que diz pagar um preço por se posicionar politicamente e ideologicamente de forma tão categórica. "É difícil lançar um trabalho ou fazer uma turnê. Mas, se eu não puder me indignar com as coisas que eu não aprovo quando olho para os meus irmãos e minhas irmãs, vou fazer música para quê?", indaga.