
A tentativa do premiê do Paquistão, Shehbaz Sharif, de fazer valer a diplomacia à força das armas surtiu efeito. Pouco mais de uma hora antes do prazo final para "pôr fim a toda uma civilização" — referência aos persas —, Donald Trump aceitou a proposta de Islamabad e anunciou um novo ultimato de duas semanas. "Com base nas conversas com o premiê Shehbaz Sharif e o marechal de campo Asim Munir, do Paquistão, nas quais eles me solicitaram que suspendesse o envio de forças destrutivas ao Irã esta noite, e desde que a República Islâmica do Irã concorde com a abertura completa, imediata e segura do Estreito de Ormuz, concordo em suspender o bombardeio e o ataque ao Irã por um período de duas semanas. Este será um cessar-fogo bilateral!", escreveu o presidente dos EUA em sua plataforma Truth Social. "Cumprimos e superamos todos os objetivos militares e estamos muito próximos de um acordo definitivo sobre a paz", assegurou. O Estreito de Ormuz é considerado uma via marítima vital para o escoamento de um quinto do petróleo mundial.
De acordo com Trump, Teerã encaminhou a Washington uma proposta de 10 pontos. "Acreditamos que ela constitui uma base viável para a negociação. Quase todo os pontos de divergência anteriores foram acordados entre os Estados Unidos e o Irã, mas um período de duas semanas permitirá que o acordo seja finalizado e consolidado", acrescentou. A agência de notícias France-Presse informou que, entre as exigências de Teerã, estão a aceitação, por parte dos EUA, do enriquecimento de urânio e a suspensão de sanções financeiras. As negociações em Islamabad devem começar na sexta-feira.
No início da manhã desta terça-feira (7/4), o titular da Casa Branca assustou o mundo com uma escalada sem precedentes da retórica belicista. "Uma civilização inteira morrerá esta noite, para nunca mais ressurgir. Não quero que isso ocorra, mas provavelmente irá. De qualquer modo, agora que temos uma mudança completa e total de regime, onde mentes diferentes, mais inteligentes e menos radicalizadas prevalecem, talvez algo revolucionariamente maravilhoso possa acontecer", afirmou Trump, às 9h06 pelo horário local (10h06 em Brasília), também na Truth Social.
Por meio do Conselho de Segurança Suprema Nacional, o Irã confirmou o acordo de duas semanas de cessar-fogo mediado pelo Paquistão e anunciou "vitória" na guerra. Segundo a agência estatal iraniana Mehr, os detalhes do pacto foram aprovados diretamente pelo atual líder supremo, Mojtaba Khamenei, filho do aiatolá Ali Khamenei, morto durante um bombardeio israelense a Teerã em 28 de fevereiro. "Essas negociações começarão em Islamabad, com a completa desconfiança do lado americano. (...) Nossas mãos estão sobre o gatilho, e o mais leve erro cometido pelo inimigo será respondido com força total", alertou. O ministro das Relações Exteriores iraniano, Seyed Abbas Araghchi, admitiu que, "se os ataques contra o Irã forem suspensos, nossas poderosas forças armadas cessarão suas operações defensivas" — uma alusão ao bloqueio do Estreito de Ormuz. "Por um período de duas semanas, a passagem segura através do estreito será possível via coordenação com as Forças Armadas do Irã e levando-se em consideração as limitações técnicas", declarou.
À espera de um ataque sem precedentes dos EUA, o regime iraniano convocou correntes humanas em todo o país para cercar as centrais elétricas do país persa. As autoridades garantem que 14 milhões de pessoas atenderam à iniciativa e protegeram usinas nucleares, pontes e instalações energéticas. Os Estados Unidos e Israel atacaram a usina petroquímica Amir Kabir, em Mahshar (sudoeste do Irã), sem deixar feridos. O governo israelense instou os cidadãos do Irã a evitarem o uso de trens. Mais cedo, a Rússia e a China utilizaram o direito de veto no Conselho de Segurança da ONU e derrubaram uma resolução que exigia o desbloqueio do Estreito de Ormuz e promovia a escolta de navios. O texto, elaborado pelo Bahrein e apoiado pelos países do Golfo Pérsico e pelos EUA, obteve 11 votos a favor, dois contra e duas abstenções.
Influência
Para Roberto Goulart Menezes, professor do Instituto de Relações Internacionais da Universidade de Brasília (UnB), chamou a atenção o fato de Trump ter incluído Shehbaz Sharif nas negociações. "O Paquistão não está entre os principais países que dialogam com o Irã. Tudo levava a crer, pelo discurso de Trump, que ele estava muito decidido (a cumprir com a ameaça). Não foram os serviços de inteligência dos EUA que o levaram a mudar de ideia, mas um pedido do Paquistão", explicou ao Correio. "O Irã deixou bem claro que não quer um cessar-fogo, mas o fim da guerra. O petróleo fluirá pelo Estreito de Ormuz assim que o conflito acabar. Trump gosta de estar em uma posição de quem manda e decide tudo, de alguém cujas vontades devem ser atendidas, sob o risco de um preço altíssimo", acrescentou.
Menezes lembrou que o novo ultimato se inclui em uma sequência de recuos desde 28 de fevereiro. "Trump usou a própria rede social para desfazer o que tinha declarado horas atrás. A pressão sobre os EUA é grande. O republicano sabe que a guerra carece de legitimidade ante o Congresso, as Nações Unidas e a comunidade internacional", disse o professor. "Ele sabe que, se levasse adiante o ataque sem precedentes, faria com que a guerra se alastrasse."
O estudioso da UnB acredita que, por mais estarrecedora que seja, a declaração de Trump não surtirá em nenhuma consequência prática para o presidente americano. "Os Estados Unidos violaram o direito internacional dezenas de vezes. Em 2003, acusaram o Iraque de ter armas de destruição em massa e arruinaram o país. O mesmo ocorreu na Líbia. O que vimos foi Trump expor, da forma mais bruta possível, o poderio dos EUA, em nome de uma dominação nas relações internacionais, pura e aberta."
Denilde Holzhacker, professora de relações internacionais da ESPM, não se surpreende com a decisão de Trump. "Ele fez o que tem feito em vários momentos: faz uma ameaça com grande impacto, começa a negociar e recua. O Irã mostrou que não retrocederia, apesar das ameaças. O regime chegou a criar correntes humanas (em torno das centrais elétricas iranianas), e um ataque poderia escalar ainda mais o conflito", disse ao Correio. "Agora, será preciso ver se o cessar-fogo perdurará e se haverá ataques e contra-ataques táticos. O desfecho demonstra, pelo menos, que as negociações podem avançar."
O papa Leão XIV qualificou como "inaceitável" a ameaça do presidente americano, Donald Trump, de eliminar toda a civilização iraniana se Teerã não respeitar seu ultimato para reabrir o Estreito de Ormuz. "Hoje, como todos sabemos, foi feita esta ameaça contra todo o povo do Irã, e isto é realmente inaceitável. Certamente, há questões de direito internacional, mas muito mais que isso, trata-se de uma questão moral, pelo bem do povo, completo e inteiro. E eu gostaria de convidar todos a pensarem, de coração, verdadeiramente, nos tantos inocentes, crianças e idosos, totalmente inocentes, que também seriam vítimas desta escalada", disse, ontem, o papa aos jornalistas, ao deixar sua residência de Castel Gandolfo, perto de Roma, rumo ao Vaticano. "Desde os primeiros dias, dizíamos: retornemos ao diálogo, às negociações. (...) Em vez disso, estamos aqui. É preciso rezar muito", acrescentou. "Somos um povo que ama a paz, há tanta necessidade de paz no mundo!", concluiu.
Dentro e fora dos Estados Unidos, e inclusive em setores da opinião pública e em círculos políticos que o apoiam (ou apoiavam), as ameaças de Donald Trump de aniquilar a civilização persa-iraniana provocaram reações que vão da censura à condenação pura e simples — passando pela incredulidade. Bombardeado pela oposição democrata no Congresso, o presidente viu sua sanidade mental questionada por analistas, estudiosos e até por antigos aliados.
"Realmente, ele parece estar um pouco mais desequilibrado do que no passado", disse à agência de notícias France-Presse Peter Loge, diretor da Escola de Mídia da Universidade George Washington. O estudioso atribuiu os exageros verbais do ultimato, em parte, ao que chama de "um padrão mais amplo de fanfarronice" de Trump, e acenou inclusive com a possibilidade de um novo adiamento do prazo para a reabertura do Estreito de Ormuz. "Dentro de algumas semanas, veremos o mesmo filme novamente", arriscou.
Mais contundente, a ex-deputada Marjorie Taylor Greene, eleita como trumpista, mas rompida com o presidente desde o ano passado, classificou como "maldade e loucura" a ideia de "aniquilar uma civilização inteira". Com a ressalva de não estar "defendendo o Irã", ela sustentou que o Estreito de Ormuz está fechado "porque os EUA e Israel começaram uma guerra não provocada, com base na mentira que vêm contando por décadas, de que o Irã poderia ter armas nucleares a qualquer momento". A ex-congressista acusou o presidente de trair a promessa de campanha de manter o país fora de guerras alheias. "Israel é quem tem armas nucleares, e é mais do que capaz de se defender", disparou, para ao fim desafiar os integrantes do governo "que se dizem cristãos" a "pedirem perdão a Deus interferirem na insanidade do presidente".
Em tom semelhante, o apresentador de TV Tucker Carlson, outro ex-aliado, definiu as ameaças ao Irã como "o primeiro passo para uma guerra nuclear". Anthony Scaramucci, que foi porta-voz da Casa Branca por um breve período em 2017, no primeiro mandato de Trump, classificou o ex-chefe como "louco" e defendeu sua destituição.
No Congresso, enquanto deputados e senadores republicanos (governistas) guardavam silêncio constrangido, a oposição passou à ofensiva. O líder democrata no Senado, Chuck Schummer, usou a rede social X para desejar, com ironia, uma feliz Páscoa aos norte-americanos. "Enquanto vocês se dirigem para a igreja e para celebrar com a família e os amigos, o presidente dos EUA está nas redes sociais como um louco descontrolado", escreveu. "Ameaça cometer crimes de guerra e ofende nossos aliados: isso é quem ele é, mas não representa quem somos nós."
O senador Bernie Sanders, independente e autoproclamado socialista, classificou a postagem de Trump sobre "aniquilar a civilização (persa)" como o "delírio de um homem perigoso e desequilibrado", e chamou o Congresso a "agir imediatamente e pôr fim a essa guerra". Na mesma linha, o democrata Chris Murphy invocou a 25ª emenda à Constituição, que prevê a possibilidade de o presidente ser declarado incapaz para o cargo e o vice assumir seu lugar. "Se eu fizesse parte do governo, consultaria juristas sobre isso. Ele (Trump) já matou milhares de pessoas, e matará milhares mais."