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Chuvas acima da média para o mês de março colocam DF em estado de alerta

Volume pluvial acumulado em março supera índices históricos, provoca destruição em ruas e imóveis e acende risco à saúde da população. Governo intensifica ações de prevenção e reparo. Especialistas alertam para os riscos à saúde provocados pelas enchentes

Por: Redação Fonte: Noticia Certa
26/03/2026 às 08h45
Chuvas acima da média para o mês de março colocam DF em estado de alerta

O volume de chuvas registrado em março no Distrito Federal ultrapassa a média histórica e vem deixando um rastro de prejuízos materiais e riscos à saúde. De acordo com o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), o acumulado chegou a cerca de 300 milímetros, acima dos 220 milímetros esperados para o período. O índice também supera o registrado no mesmo mês do ano passado. Na madrugada dessa quarta-feira (25/3), a capital entrou em alerta laranja, que indica perigo, antes de recuar para alerta amarelo ao longo do dia. Ainda assim, o cenário segue preocupante: quedas de árvores, muros derrubados, vias destruídas e alagamentos têm afetado diferentes regiões administrativas.

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Em Vicente Pires, a força da água derrubou um muro de seis metros de altura, construído por moradores há cinco anos para conter enxurradas na Avenida da Misericórdia. A estrutura, que custou cerca de R$ 22 mil, não resistiu à pressão. O impacto atingiu diretamente o morador Celismar Pinto, 48 anos. O carro dele, uma Mercedes C180, estava estacionado próximo ao muro e foi destruído pelo concreto. Além do veículo, o portão da residência também foi danificado.

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Celismar soube do ocorrido por telefone. "Eu estava fora de casa quando a vizinha me ligou dizendo que o muro tinha caído em cima do meu carro", relatou. Sem cobertura do seguro para fenômenos naturais, ele ainda não sabe o tamanho do prejuízo. "Agora preciso recomeçar, tirar os entulhos e tentar recuperar o que for possível", disse. Apesar das perdas, ele destaca o alívio: "Fico feliz que ninguém se machucou".

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Em Taguatinga, os efeitos da chuva revelam problemas estruturais antigos. Na QNA 4, parte do asfalto cedeu, abrindo uma cratera no meio da via. Moradores atribuem o problema à drenagem insuficiente e à ausência de bocas de lobo. O administrador predial Alex Alves, 38, conta que o impacto foi além da rua. "O elevador do prédio parou de funcionar, e tivemos que subir escadas. É consequência direta da drenagem precária", afirma. Segundo ele, o receio de prejuízos fez com que evitasse sair de carro durante o dia.

Funcionária de um restaurante na região, Jiumara Araújo Alves, 45, relata que o asfalto apresentava desgaste desde a última semana. Com a chuva, a situação se agravou rapidamente. "A água levou pedaços inteiros da pista. Teve carro sendo danificado e eu nem consegui ir embora direito", conta.

Fortes chuvas causam estragos em regiões administrativas do DF

Queda de árvore

No Taguaparque, uma árvore antiga caiu durante a madrugada, sem deixar vítimas, mas reforçando o cenário de instabilidade causado pelas rajadas de vento e pelo solo encharcado. O impacto das chuvas também se reflete no cotidiano de comerciantes e motoristas. Wagner Mendes, 47, que trabalha há mais de 20 anos na região, afirma que os problemas no asfalto são recorrentes. "Eles tapam, mas é só começar a chover que tudo aparece de novo. Parece maquiagem", critica. Ele relata prejuízos frequentes: "Já perdi pneu, tive problema na suspensão. E não é um ponto isolado".

O aposentado Neirivan Aquino enfrenta situação semelhante na Praça do Bicalho. "Você não vê o buraco quando chove. Já caí em um. Eles tapam hoje e amanhã abre de novo", relata. Segundo ele, mesmo sem danos imediatos graves, o desgaste no veículo é inevitável.

Danos sanitários

Além dos danos materiais, especialistas alertam para os riscos à saúde provocados pelas enchentes. O médico infectologista Marcelo Neubauer explica que o contato com água contaminada pode desencadear doenças graves. "A leptospirose é uma das principais preocupações. É causada por uma bactéria presente na urina de ratos e pode levar a quadros severos, com necessidade de internação e até risco de morte", aponta.

Segundo o médico, infecções de pele e problemas gastrointestinais também são comuns nesse cenário. "A água de enchente é contaminada. O simples contato ou ingestão pode causar infecções e quadros de disenteria", explica, reforçando que o período chuvoso ainda favorece a proliferação do mosquito transmissor da dengue. "Com mais água parada, aumenta o número de criadouros e, consequentemente, os casos da doença", completa.

Força-tarefa

Em Ceilândia, o volume de chuvas mobilizou o poder público. Após as precipitações da noite do último dia 15, o Governo do Distrito Federal iniciou uma força-tarefa no Condomínio Privê e no Setor O. Equipes da administração regional, do Serviço de Limpeza Urbana (SLU), do programa GDF Presente e da Novacap atuaram na retirada de detritos, limpeza de vias e desobstrução de bocas de lobo. Uma cratera identificada no Setor O levou ao isolamento da área para evitar acidentes.

A Novacap afirma que mantém equipes em atuação diária para recuperar vias danificadas, especialmente durante o período chuvoso. Segundo a companhia, o objetivo é garantir condições mínimas de trafegabilidade. Dados do órgão mostram que, apenas nos dois primeiros meses de 2026, foram atendidas 105 ordens de serviço relacionadas a tapa-buracos. Em 2025, foram 771, e em 2024, 966. As ações se concentram principalmente no Plano Piloto, Gama, Ceilândia e outras regiões com maior demanda. Atualmente, cerca de 350 toneladas de massa asfáltica são utilizadas semanalmente nas operações.

A massa utilizada é produzida na usina da própria Novacap, a partir da mistura de brita, areia e derivados de petróleo. Segundo o engenheiro civil Maurílio Tibery, a qualidade do pavimento depende de três fatores: projeto adequado, material de qualidade e execução eficiente. Apesar da estrutura disponível e das equipes em campo, moradores apontam que as soluções ainda são paliativas diante da intensidade das chuvas.

Novacap afirma que mantém equipes diariamente para recuperar vias

Instabilidade

De acordo com a meteorologista Andrea Ramos, o comportamento das chuvas reflete características típicas do verão, mesmo com a chegada do outono. "Estamos em uma estação de transição. O outono ainda mantém características do verão, com calor e alta umidade. Essa combinação favorece a formação de nuvens de tempestade, que provocam chuvas intensas, rajadas de vento, trovoadas e até granizo", explica.

De acordo com a especialista, o chamado corredor de umidade vindo da Amazônia continua influenciando o clima na região. "Tem dias sem chuva, mas quando chove, chove forte. É um padrão irregular, típico desse período", afirma Andrea. Ela destaca que, apesar da variabilidade, o comportamento climático segue dentro do esperado. "Ainda não há um desvio significativo. A tendência é que, a partir de maio, as chuvas comecem a diminuir gradualmente, com a transição para o período seco", conclui.