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Filho de Lula na mira da PF e da CPMI do INSS

Ministro André Mendonça autorizou, em janeiro, a quebra dos sigilos de Fabio Luís Lula da Silva, solicitada pelos agentes federais. Ontem, foi a vez de a comissão aprovar o acesso às mesmas informações. Lulinha é, supostamente, citado no diálogo entre uma empresária e o “Careca do INSS”

Por: Redação Fonte: Correio Braziliense
27/02/2026 às 09h45
Filho de Lula na mira da PF e da CPMI do INSS

O filho mais velho do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, Fabio Luís Lula da Silva — o Lulinha — entrou na mira da Polícia Federal (PF) e da CPMI que investiga as fraudes contra aposentados e pensionistas do INSS. Em janeiro, a corporação pediu ao ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), a quebra dos sigilos bancários, fiscais e telemáticos para apurar se ele teria alguma ligação com o empresário Antônio Camilo Antunes, o "Careca do INSS", apontado como principal operador do esquema de descontos indevidos de benefícios e pensões da Previdência. Uma suposta citação a Lulinha aparece num diálogo entre Antunes e a empresária Roberta Luchsinger, que jamais escondeu a amizade com o filho do presidente — quer, atualmente, mora na Espanha.

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Já a CPMI também aprovou, ontem, as quebras dos sigilos bancário e fiscal do filho do presidente. O pedido avançou em função de o nome de Lulinha aparecer em relatórios e depoimentos reunidos na Operação Sem Desconto, da PF. Embora ele não seja investigado no inquérito, documentos em poder do colegiado trazem menções como possível beneficiário de repasses irregulares. Parlamentares da oposição sustentam que as mensagens interceptadas e os depoimentos colhidos até agora justificam a ampliação das investigações. A comissão aprovou a análise de sigilos de diversas pessoas físicas e jurídicas suspeitas de envolvimento nas irregularidades no INSS.

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As apurações da PF e da CPMI convergem na mesma direção. Lulinha é citado como suposto "sócio oculto" do "Careca do INSS", que segundo a PF recebia os recursos desviados de aposentados e pensionistas e repassava parte a servidores do INSS e a outros envolvidos no esquema. Em depoimento, o ex-funcionário Edson Claro afirmou que o filho do presidente receberia uma "mesada" de R$ 300 mil e valor semelhante aparece em mensagens trocadas entre "Careca" e Roberta Luchsinger. Nos diálogos, o empresário menciona a necessidade de repassar a quantia ao "filho do rapaz", o que, para integrantes da CPMI, seria uma alusão a Lulinha.

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A própria PF, porém, salientou a Mendonça que as menções a Fábio Luís surgiram por terceiros. Por conta disso, não há, por ora, elementos sobre uma participação direta do filho do presidente nos fatos do inquérito, que, aliás, está sob sigilo. Em certo trecho do relatório ao ministro do STF, a corporação faz questão de frisar: "Tais afirmações devem ser analisadas com cautela e submetidas a verificação rigorosa, a fim de evitar conclusões precipitadas. Nesse cenário, as referências colhidas até o momento apontam para menções realizadas por terceiros e vínculos indiretos, que sugerem a possível participação de Fábio Lula em movimentações destinadas a fomentar projetos empresariais de Antônio Camilo".

De acordo com a PF, a investigação inspira cuidados em função da polarização política. "Eventualmente confirmadas as citações e hipóteses criminais levantadas, e uma vez deferidas e cumpridas as medidas cautelares propostas neste representação, a Polícia Federal adotará todas as providências necessárias ao fiel cumprimento de sua missão constitucional: entregar a verdade dos fatos aos legitimados da persecução penal, livre de interferências externas ou narrativas políticas, assegurando que nenhuma injustiça seja cometida, considerando a polarização política existente no país", salienta.

Balbúrdia

Foi exatamente a polarização política que transformou a sessão da CPMI que aprovou as quebras de sigilo de Lulinha em uma total balbúrdia. Indignados com o que consideraram uma manobra da cúpula da CPMI — segundo os governistas, o presidente do colegiado, Carlos Viana (Podemos-MG), contou erradamente o número de presentes no plenário e os votos —, integrantes da base do Palácio do Planalto cercaram a mesa em protesto contra o resultado. O requerimento foi apresentado pelo relator da comissão, deputado Alfredo Gaspar (União-AL).

O clima ficou tenso depois que os deputados Rogério Correia (PT-MG) e Evair Vieira de Melo (PP-ES) se estranharam e trocam empurrões. O petista chegou a acertar de raspão o deputado Luiz Lima (Novo-RJ), que tentou revidar. A sessão teve de ser suspensa até que os ânimos se acalmassem. Na volta dos trabalhos, Correia se desculpou com Lima.

O governo trabalhou para que todos os 87 requerimentos fossem votados em bloco, dizendo que havia uma blindagem de Carlos Viana, que, segundo eles, apenas pautaria aqueles favoráveis à oposição. Parlamentares petistas queriam que a CPMI levasse a votação as convocações do ex-presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto; integrantes da Igreja Lagoinha, da qual Viana faz parte; e outros ex-integrantes e aliados que fizeram parte da gestão de Jair Bolsonaro quando era presidente.

Inconformados com a derrota, os governistas recorreram ao presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), com um pedido para que anulasse a votação. Foram até a residência oficial, mas saíram de lá sem garantia alguma — o senador afirmou que decidiria somente depois de ouvir a oposição e consultar a Advocacia do Senado.

Quem é quem

Fabio Luís Lula da Silva — As fraudes no INSS não são a primeira polêmica envolvendo Lulinha. Em 2004, ele era cofundador da Gamecorp, voltada para o mercado de jogos eletrônicos e conteúdo para tevê. O negócio chamou a atenção quando a Telemar (atual Oi) investiu cerca de R$ 5 milhões na empresa. Isso gerou questionamentos se o aporte era com base no potencial da empresa ou na influência política do pai.

Roberta Luchsinger — Neta do banqueiro suíço Peter Paul Arnold Luchsinger, ex-acionista do Credit Suisse, e sobrinha de Roger Wright, ex-diretor da mesma instituição, é amiga de Lulinha. Concorreu a deputada estadual em São Paulo, em 2018, mas só obteve a suplência. Em dezembro de 2025, foi alvo da Polícia Federal no âmbito da Operação Sem Desconto — que apura os descontos indevidos em benefícios aposentadorias do INSS.

Antônio Camilo Antunes — O “Careca do INSS” é descrito como um articulador com facilidade de trânsito em gabinetes e órgãos federais, utilizando sua rede de contatos para manter os contratos de suas empresas. É apontado pela Polícia Federal como o suposto mentor de um esquema de fraudes de descontos ilegais de aposentados e pensionistas do INSS. Esse dinheiro era desviado para entidades e associações de fachada ou empresas ligadas ao grupo.