
A 1ª Vara Criminal e do Tribunal do Júri de Águas Claras aceitou, ontem, a denúncia do Ministério Público do Distrito Federal e Territórios (MPDFT) e tornou Pedro Arthur Turra Basso, de 19 anos, réu por homicídio doloso qualificado por motivo fútil. Ele é acusado de agredir Rodrigo Castanheira, 16, em 23 de janeiro, na saída de uma festa, em Vicente Pires. Após 16 dias internado, em coma, o adolescente morreu em 7 de fevereiro, no Hospital Brasília Águas Claras.
No caso de homicídio doloso, a pena pode chegar a 30 anos de prisão, em regime inicial fechado, e o julgamento ocorre no Tribunal do Júri, por um corpo de jurados. Agora, o réu precisa apresentar defesa técnica em até 10 dias, com produção de provas (testemunhas, perícias), audiências de instrução e alegações finais.
Em entrevista ao Correio, Flávio Fleury, tio de Rodrigo, celebrou a decisão que torna Pedro Turra réu. "Receber a notícia de que o crime foi classificado como homicídio qualificado por motivo fútil nos faz sentir acolhidos pela Justiça. Desde o início, sabíamos não ter sido apenas uma agressão grave, seguida de morte. Isso nos dá força para continuar lutando", declarou.
Amigos e membros da comunidade participaram, também ontem, da missa de sétimo dia de Rodrigo Castanheira, realizada na Paróquia Nossa Senhora da Esperança, em Vicente Pires. A celebração foi marcada por orações, lágrimas e lembranças de um adolescente descrito por quem convivia com ele como alguém "doce", "tranquilo" e "cheio de luz". O templo ficou tomado por pessoas que acompanharam de perto a trajetória de Rodrigo e por aqueles que se aproximaram da família após a repercussão do caso.
Entre os presentes estavam duas amigas do jovem, que falaram sobre a convivência com ele e o impacto da morte precoce. Para uma delas, a tragédia causa ainda mais comoção por interromper uma vida que estava apenas começando. "É triste ver essa situação, porque o Rodrigo tinha muita coisa para viver. Era muito jovem e muito bom", afirmou a amiga, de 17 anos.
Outra amiga descreveu o impacto emocional de vivenciar os momentos de despedida e o sofrimento da família. "Quando vi os pais dele e a irmã falando ao microfone, no velório, senti a dor deles também. A dor de perder um filho é algo que não dá para descrever", afirmou a adolescente, também de 17 anos. Apesar da tristeza, ela disse buscar conforto na fé. "Acredito que os planos de Deus são os melhores. O que acabou aqui, lá em cima não acabou", declarou.
O andamento do caso no Superior Tribunal de Justiça (STJ) foi impactado pela decisão do Tribunal de Justiça do Distrito Federal e dos Territórios (TJDFT), que negou, na quinta-feira, o quarto pedido de liberdade apresentado pela defesa de Turra.
A decisão da 2ª Turma Criminal que manteve a prisão preventiva do ex-piloto de Fórmula Delta foi proferida um dia depois de o MPDFT denunciá-lo, na quarta-feira, por homicídio doloso por motivo fútil, quando há intenção de matar, além de requerer que Turra seja condenado a pagar uma indenização mínima de R$ 400 mil por danos morais à família de Rodrigo.
Com isso, o recurso ordinário em habeas corpus apresentado pela defesa de Pedro Turra no STJ, que tinha o objetivo de questionar a negativa da liminar no TJDFT, ficou prejudicado, uma vez que a decisão contestada deixou de existir.
O advogado Albert Halex, que representa a família de Rodrigo Castanheira, afirmou que o caso teve avanços relevantes nos últimos dias, especialmente no esclarecimento da causa da morte e na consolidação da tese de premeditação e emboscada. Segundo ele, o fato de Pedro Turra ter sido denunciado pelo Ministério Público por homicídio doloso confirma a gravidade dos fatos. "Estamos acompanhando o caso até o fim. Queremos apenas justiça, nem mais, nem menos, só o que é devido", assinalou.
Em nota, a defesa de Pedro Turra afirmou que respeita a decisão da Turma Criminal do TJDFT, mas discorda do entendimento adotado. Segundo os advogados, a discordância se dá por fundamentos jurídicos. A nota afirma, ainda, que a posição não representa inconformismo retórico. "A divergência ora externada não traduz inconformismo retórico, mas exercício legítimo da advocacia, no marco do Estado Democrático e Jurídico de Direito." Por fim, a defesa ressaltou que continuará atuando nos tribunais "com responsabilidade, rigor técnico e absoluto compromisso com a legalidade constitucional, buscando a tutela da liberdade de seu assistido perante os Tribunais Superiores", concluiu.
Em 23 de janeiro, Rodrigo Castanheira foi agredido por Pedro Turra, na saída de uma festa, em Vicente Pires, e sofreu traumatismo craniano severo. Ainda pela manhã, o ex-piloto foi preso em flagrante, mas acabou liberado após o pagamento de fiança de R$ 24,3 mil. Diante da gravidade do estado de saúde da vítima e dos indícios de que o agressor tentava interferir nas nvestigações, a Justiça decretou, em 29 de janeiro, a prisão preventiva dele, que foi detido na casa da mãe.
No Centro de Detenção Provisória (CDP) da Papuda, Turra está em uma cela individual, após alegações de risco à integridade física. Após 16 dias internado, Rodrigo morreu, em 7 de fevereiro, gerando comoção em todo o DF. O ataque, para a família do adolescente, não foi um incidente isolado, mas uma emboscada premeditada, tese que, se confirmada, descarta a versão inicial de um desentendimento por causa de um chiclete.
Vítor Sampaio, advogado criminalista e professor de direito constitucional e penal
Com a denúncia aceita pela Justiça, o processo começa de fato: Pedro Turra passa a ser réu, isto é, formalmente acusado em uma ação penal. Significa que o juiz entendeu haver base mínima para a acusação ser analisada e decidida ao final, se condena ou absolve.
O próximo passo é a defesa inicial, quando os advogados podem questionar o enquadramento da acusação, apontar possíveis falhas na investigação, indicar testemunhas e pedir diligências (por exemplo, perícias complementares, juntada de documentos).
Depois vem a fase central do processo: a produção de provas (ou fase de instrução processual). Aqui, a acusação e defesa trabalham ativamente para fortalecer suas teses, com depoimentos, perícias, análises técnicas, vídeos, mensagens e demais elementos que possam demonstrar o que efetivamente ocorreu. Ao fim, apresentam alegações finais cada qual com seus pedidos para o caso.
Após a instrução, como se trata de uma acusação de crime doloso contra a vida (homicídio qualificado por motivo fútil), o procedimento deve seguir o rito do Tribunal do Júri, que tem duas etapas.
Na primeira, após ouvir testemunhas e analisar laudos e vídeos, o juiz faz uma decisão de "triagem". Ele define se o processo vai ou não para o julgamento pelos jurados e, principalmente, com qual enquadramento: se a acusação continua como homicídio doloso (isto é, se o Ministério Público consegue sustentar que houve intenção de matar ou assunção do risco) e se existem agravantes, ou se a prova aponta para outro crime menos grave (lesão corporal seguida de morte, por exemplo), o que mudaria todo o rumo do processo. Ou seja, ainda existe a possibilidade do caso deixar de ir a Júri, se assim o juiz entender após a instrução.
Se o caso for enviado ao Júri, vem a segunda etapa: o julgamento em plenário, com sete jurados. Acusação e defesa apresentam suas versões, os jurados respondem a perguntas objetivas (se o autor teve a intenção de matar ou assumiu o risco; se existe alguma circunstância que agrave o crime; se concorda com alguma tese da defesa que afasta a responsabilidade; entre outras), e então o juiz fixa a pena e profere a sentença. Depois disso, ainda podem existir recursos, dentro dos limites legais.
Na condenação, o juiz pode fixar um valor mínimo de reparação à família, sem impedir que a indenização seja discutida também na esfera cível. Além disso, a prisão preventiva pode ser revista ao longo do processo. Certamente, a defesa seguirá com novos pedidos de liberdade.
Contribuiu Paulo Gontijo
Mãe Mãe de menina chutada pelo pai denuncia crime após ver imagens nas redes
GDF GDF amplia cotas do serviço voluntário da PMDF para reforçar policiamento nas ruas
CEB IPes CEB IPes e PMDF assinam acordo para combater furto de cabos com inteligência e integração Mín. 12° Máx. 24°


