Sunday, 06 de September de 2026
22°

Tempo nublado

Brasília, DF

Brasil ELEIÇÕES

Com Lula no radar, Bolsonaro avança em ações populistas no governo

Com a piora do quadro da covid-19, o que vem fazendo com que a popularidade esteja em queda, especialistas enxergam a conversão do governo Bolsonaro em uma gestão dissociada da saúde fiscal do país e voltada ao agrado de grupos de interesse para manter apoio

16/03/2021 às 09h01
Por: Fonte: Correio Brasiliense
Compartilhe:
Com Lula no radar, Bolsonaro avança em ações populistas no governo

Diante do agravamento da pandemia da covid-19 no Brasil — epicentro de contágios e mortes no mundo —, e do ressurgimento do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva como forte adversário político para as eleições de 2022, o presidente Jair Bolsonaro colhe os frutos que plantou, em 2020, ao pregar contra o distanciamento social, as vacinas e o uso de máscaras. E acende o alerta entre especialistas ao sinalizar ações populistas, tal como a intervenção que fez no comando da Petrobras.

Continua após a publicidade

A aprovação popular do chefe do Executivo vem caindo e está praticamente empatado com o petista nas preferências de voto, segundo pesquisas recentes. Isso aumenta as chances para a adoção de uma agenda econômica que proponha aumento de gasto público e impeça privatizações. Analistas ouvidos pelo Correio não afastam essa possibilidade diante do agravamento da crise sanitária, que, na semana passada, somou 12.766 mortes.

Continua após a publicidade

Pesquisa XP/Ipespe, divulgada na última sexta-feira, mostra que 61% dos entrevistados acham que a atuação do governo contra a pandemia é ruim ou péssima. Analistas ressaltam que Bolsonaro ainda vai ter que enfrentar, em 2021, a economia cambaleante e com dificuldades para se recuperar da recessão provocada pela pandemia — que deve se estender, pelo menos, pela primeira metade deste ano.

Continua após a publicidade

Apesar de Bolsonaro ter pouco espaço fiscal para aumentar gastos, deu sinais de que pode optar pelo populismo, como quando interferiu na Petrobras e apoiou o reajuste de policiais durante o debate da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) Emergencial, no Congresso. Ele ainda ensaiou atirar contra “o senhor mercado”, principal apoiador do presidente até agora, mas que foi criticado por ele na última live semanal.

O mercado defende o último pilar de uma garantia mínima de austeridade fiscal: o teto de gastos, que limita o aumento das despesas à inflação do ano anterior. Ainda não precificou o risco de uma guinada populista de Bolsonaro, mas tenta ignorar a crise ao olhar apenas para os bons ventos do mercado externo, que avança enquanto o Brasil empaca.

“Bolsonaro pode até tentar ser populista, mas será muito difícil, pois precisaria até tirar uma foto tomando vacina, algo que Donald Trump (ex-presidente dos Estados Unidos) fez escondido”, comentou o cientista político e professor emérito da Universidade de Brasília (UnB) David Fleischer. Para ele, o presidente terá problemas em 2022, caso o Supremo Tribunal Federal (STF) confirme a decisão do ministro Edson Fachin, que anulou as condenações contra Lula e devolveu os direitos políticos ao petista.

A aprovação da PEC Emergencial, mais desidratada do que o proposto pela equipe econômica, também acendeu o alerta de que o populismo de Bolsonaro pode ganhar força. Como moeda de troca para a aprovação de uma nova rodada do auxílio emergencial, limitado a R$ 44 bilhões, os gatilhos fiscais, que devem ser acionados para o controle de gastos, ficaram capengas e com pouco efeito prático. Afinal, permitiram a progressão automática nas carreiras, o que garante aumento salarial aos servidores.

Analistas também não descartam a saída do ministro da Economia, Paulo Guedes, se Bolsonaro ficar desesperado para recuperar a popularidade. E, assim, mostrar que jamais foi um liberal. “Ele pode até tentar adotar uma agenda econômica mais populista, mas há pouco que possa fazer. O fiscal está atado”, avalia Sergio Vale, economista-chefe da MB Associados, acrescentando que se Bolsonaro “rifar Guedes para colocar um populista na economia, o mercado explode de vez e, aí, em 2022 vai ser pior ainda”.

Quadro difícil

O especialista em contas públicas Felipe Salto, diretor-executivo da Instituição Fiscal Independente (IFI), do Senado, lembra que o quadro fiscal e econômico é intrincado. Com o elevado risco de a vacinação contra a covid-19 ser lenta, a retomada da economia será prejudicada. “A perspectiva de crescimento para este ano poderá ser minada se a vacinação não avançar. Do lado das contas públicas, a dívida crescerá ainda por vários anos. Não há espaço para aventuras”, frisa. Para ele, o governo precisa ter uma atuação focada contra a doença. “Isso só acontecerá com ampla vacinação e reforço das medidas prudenciais de restrição, uso de máscaras etc”, aconselha.

O cientista político Rafael Favetti ressalta que o populismo é um fenômeno global, que ganhou força nas sociedades em rede. "A presença de Paulo Guedes deu a ilusão de que uma mentalidade militarista conseguiria navegar bem no liberalismo ortodoxo. Mas liberalismo e nacionalismo não andam de mãos dadas em lugar algum. Um exemplo do nacionalismo é a defesa da soberania, que impede o avanço das fileiras do liberalismo, e isso torna o convívio quase impossível", reforçou. Ele acredita que a agenda liberal de Guedes foi abandonada, tanto que não para de perder força no governo. "O cuidado com o fiscal perdeu, no ano passado, o principal soldado, o Mansueto Almeida", observou.