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Saúde COVID-19

A covid-19 persiste e negá-la é um risco, alertam especialistas

Analisando momento atual da pandemia na capital, especialistas lembram que desaceleração não significa desaparecimento do novo coronavírus. Eles levantam dúvidas sobre a estratégia da imunidade de rebanho

22/10/2020 15h21
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Por: DILMAN LIMA
A covid-19 persiste e negá-la é um risco, alertam especialistas

Após 237 dias do primeiro decreto do Governo do Distrito Federal relacionado à covid-19, 106 textos legislativos foram publicados com novas normas ou alterações de medidas de enfrentamento ao vírus, que atualmente apresenta números de queda de taxa de transmissão. Ainda há, porém, uma incerteza quanto à avaliação real do cenário atual da pandemia no DF e quanto às possibilidades de uma segunda onda de crescimento de casos nos próximos meses, como está sendo visto em países da Europa. A capital federal criou um plano de desmobilização de leitos de unidade de terapia intensiva (UTI) destinados à covid-19, encarando a situação como mais controlada, e a Secretaria de Saúde se diz pronta para um possível crescimento de contaminações. Porém, especialistas afirmam que é preciso dar continuidade às medidas de combate recomendadas e realizar projeções exatas e transparentes para se prevenir diante de novos cenários reversos.

“Temos que lembrar que uma parte muito grande da população ainda é suscetível à infecção e agora estamos convivendo com a saída de pessoas que ainda estavam em confinamento, como quem trabalhava de forma remota e voltou ao presencial e as crianças que retornaram às escolas. É um exército de pessoas que pode fazer com que aconteça a chamada recrudescência de um novo aumento e aceleração de casos”, explica o diretor científico da Sociedade de Infectologia do DF e infectologista do Laboratório Exame, David Urbaez. O especialista lembra, também, que é uma avaliação incorreta acreditar que o vírus está “desaparecendo”. “O que há é uma desaceleração. O coronavírus está vivo e isso precisa ser dito no debate diário, mas há um negacionismo muito grande em relação à doença. Não adianta dizer que estamos cansados de ficar em casa, sem se aglomerar, porque o vírus não cansa”, afirma.

Caso o DF volte a conviver com uma aceleração, em uma segunda onda de contaminações, o cenário pode ser diferente por conta de toda experiência acumulada nos últimos meses, mas isso não significa que está tudo sob controle, segundo David. “Existe uma preocupação com a capacidade de resposta a isso. O corpo clínico teve um valor agregado muito grande, e imagino que a Secretaria de Saúde tenha mecanismos administrativos preparados, em gestão. Mas não podemos reagir só quando entramos em uma onda. É preciso questionar se o recurso financeiro estará disponível, se temos elementos para contratar pessoas, ter convênios para contratar UTIs”, exemplifica. Segundo ele, outra forma de ação importante para combate e prevenção é ter uma vigilância rigorosa, aliada de conscientização da população. “A gente vê uma quantidade grande de pessoas que está sem máscara, que diminui o distanciamento, frequenta festas, teatro, cinema. Isso volta a dar todas as condições para aumentar a circulação do vírus”, explica.

Preocupação

Pouco mais de 200 mil pessoas tiveram contato com o vírus no DF, que tem população estimada em 3 milhões de habitantes, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Isso mostra que há possibilidade de contaminação de uma boa parte da população. Marcos Iris Fonseca, 38 anos, não teve a doença e diz ser necessário enxergar com cautela o futuro da curva de casos. “Por mais que tenham caído (os números de transmissão), a gente não sabe como os hospitais estarão preparados para uma outra onda da pandemia. O Hospital de Campanha de Ceilândia, por exemplo, nem chegou a ser concluído”, reclama o morador de Sobradinho.

Ele conta que passou a se cuidar ainda mais quando perdeu um amigo para o vírus. “Nessas horas, a gente dobra as precauções, porque percebe que pode acontecer com a gente também”, afirma. A aposentada Josefa Neta Formiga, 62, por outro lado, já foi infectada. “Eu e mais cinco pessoas da família pegamos. Meu genro sofreu um pouco mais, teve falta de ar, tosse. Como a gente não sabe muito da doença, todo dia eu ia dormir preocupada em acordar pior e ter de ficar internada”, relata a moradora da Cidade Ocidental. Ela também acredita que é preciso ter uma colaboração da sociedade para que as unidades de saúde não sofram com falta de leitos e indisponibilidade de atendimentos.

“Ainda tomo todos os cuidados, porque vi que quem teve (covid-19), pode ter novamente e porque não quero passar para ninguém. Mas, agora, parece que esqueceram o coronavírus. Muita gente se junta, não usa máscara, fica se abraçando. Cada um tinha que fazer sua parte”, diz. A taxa de ocupação das UTIs para covid com suporte de ventilação mecânica está em 66% no DF, porém, 15 pacientes ainda estão na lista de espera por um leito de unidade de terapia intensiva apropriada para o tratamento do caso, segundo dados da Secretaria de Saúde disponíveis na Sala de Situação.

A lista

O Tribunal de Justiça do Distrito Federal e Territórios (TJDFT) disponibiliza no site um levantamento da legislação distrital sobre a covid-19, com todas as leis, normas complementares, portarias, resoluções e decretos relacionados à pandemia. Há 106 decretos listados, que começaram em 28 de fevereiro, com o Decreto nº 40.475. O documento declarava situação de emergência na saúde pública no DF, em razão do risco de pandemia da covid-19.

3.587 mortes

A Secretaria de Saúde confirmou 12 mortes e 802 casos de coronavírus, ontem. Com a atualização, o Distrito Federal contabiliza 3.587 óbitos decorrentes da covid-19 e o total de diagnósticos chega a 207.067. Atualmente, 6.159 pessoas enfrentam a doença no DF e 95,3% das pessoas que foram contaminadas estão recuperadas. As mortes registradas ontem ocorreram entre 8 de setembro e 21 de outubro. As vítimas eram sete homens e cinco mulheres; oito delas tinham mais de 60 anos. Além disso, 10 pacientes tinham outras comorbidades.

Secretaria pronta para agir

Desde a reabertura das atividades comerciais no DF, o isolamento social permanece em queda, com índice em 35,4%, de acordo com dados da empresa de software InLoco. Brasília chegou a ter 62,2% de isolamento em março. O cenário acompanha decisão do GDF em flexibilizar as medidas sanitárias, com a justificativa de desaceleração no índice de transmissão da doença. “Os dados que apontam essa diminuição são os indicadores da quantidade de pacientes de leito, o índice de transmissão do vírus e a quantidade de óbitos. Eles são suficientes para entender o comportamento do vírus na capital federal”, explica o secretário de Saúde, Osnei Okumoto. Com acompanhamento de ciclos de 14 dias, a pasta garante que, em caso de crescimento na taxa de transmissão, será possível atuação imediata. “Estamos sempre vigilantes para, se houver necessidade, voltar a mobilização para a covid-19”, declara Osnei.

Uma das estratégias da secretaria é a utilização de leitos do Hospital de Campanha de Ceilândia, com 90% das obras concluídas e previsão de entrega nos próximos dias, como retaguarda para a covid-19. “A desativação do Hospital de Campanha no Mané Garrincha aconteceu devido ao fim da validade do contrato de serviço de gestão integrada com a empresa responsável. Todos os insumos foram utilizados no atendimento dos pacientes. Já os equipamentos e camas hospitalares serão repassados para a Secretaria de Saúde distribuir em hospitais dentro da rede que estão com mais necessidade. Caso haja necessidade da utilização de novos leitos, o Hospital de Campanha em Ceilândia conseguirá atender à demanda”, relata o secretário da pasta.

Segundo ele, atualmente, há 53% dos leitos voltados para covid-19 ocupados. “A gente percebeu uma diminuição grande na procura de pacientes atualmente, outro motivo para o plano de desmobilização no Mané Garrincha, devido aos gastos que esses recursos demandam”, acrescenta.

Prevenção

Atualmente, ainda permanecem como ações do Distrito Federal para conter a contaminação da covid-19 a suspensão de eventos esportivos e sociais, o retorno das aulas nas escolas públicas e o retorno gradual dos servidores públicos locais em até 100%, atrelados às medidas sanitárias como o uso de máscaras, higienização das mãos e distanciamento social de no mínimo um metro e meio entre as pessoas.

Mesmo com a flexibilização na capital, o secretário Osnei Okumoto alerta para que a população continue a realizar ações de prevenção da doença. “A preocupação agora é de conscientizar a população para continuar a seguir as medidas sanitárias. Desde o início da pandemia ela acatou o isolamento e fez um bom isolamento. A desaceleração da transmissão é resultado disso. Esse comportamento deve continuar para que a gente possa manter o controle”, destacou Osnei.

Vacina promissora

Uma das vacinas em teste mais promissoras atualmente é a CoronaVac, da farmacêutica chinesa Sinovac, que está sendo aplicada em voluntários do DF e foi motivo de polêmica, ontem, na esfera federal. O processo de ensaios clínicos de fase três é conduzido por pesquisadores da Universidade de Brasília (UnB), no Hospital Universitário de Brasília (HUB), e já aplicou doses em 700 profissionais da saúde da capital. As aplicações começaram em agosto e mostraram “resultados promissores em relação à segurança”, segundo o pesquisador Gustavo Romero, que coordena o grupo do DF. Como não houve nenhuma intercorrência significativa nos participantes, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) aprovou a ampliação dos critérios de participação para incluir idosos. A partir de agora, pessoas com mais de 60 anos que atuam na área da saúde podem se inscrever como voluntárias, por meio de um formulário on-line disponível em app.profiscov.com/home-public.

Duas perguntas para Roberto José Bittencourt

Professor da Universidade Católica de Brasília (UCB) e médico e doutor em saúde pública

Qual é a avaliação do índice de transmissão do vírus no DF? A capital pode enfrentar uma segunda onda?

A minha interpretação é de que o governo está usando a estratégia da imunidade de rebanho, em que não se faz essencialmente nada para conter a pandemia no DF e só há atuação quando o paciente contaminado precisa ser atendido nos hospitais. Essa é uma estratégia extremamente arriscada, sendo que as medidas sanitárias não contam como um plano do governo, e sim um novo comportamento social universal. O fato é que a infecção tomou conta de uma parte razoável da população, e isso fez com que o índice de transmissão do vírus apresentasse uma queda muito lenta. Esse cenário serviu como uma barreira para a doença, que impede, aparentemente, uma segunda onda. Mesmo assim, é custo muito caro a se pagar, porque o número de óbitos é muito maior do que se o governo adotasse estratégia de vigilância epidemiológica.

Qual a importância de manter a fiscalização das medidas sanitárias na capital federal?

A covid-19 ainda é um mistério para os pesquisadores e profissionais da saúde. A gente não sabe, por exemplo, se pode haver um rebote da doença. Portanto, o distanciamento social, o uso de máscaras e de álcool em gel e a suspensão de qualquer aglomeração devem permanecer até a descoberta de uma vacina. Atrelado a isso, o governo deveria fazer um trabalho de vigilância epidemiológica. Se combinar essas situações é certeiro de que não aconteça uma segunda onda no DF.

 

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