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MEIO AMBIENTE Geral

Pantanal pode levar até 50 anos para se recuperar de queimadas

De acordo com o Instituto Centro de Vida (ICV), 95% dos focos de incêndio incidem em áreas de vegetação nativa; bioma já teve 19% de sua área total devastada

23/09/2020 20h03
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Por: DILMAN LIMA
Pantanal pode levar até 50 anos para se recuperar de queimadas

Segundo dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), já foram registrados, no Pantanal, somente este mês, 1.755 focos de calor, fazendo deste o pior setembro da história do bioma desde 2007. De acordo com o Instituto Centro de Vida (ICV), 95% dos focos de incêndio incidem em áreas de vegetação nativa e as queimadas já consumiram 19% da extensão total do Pantanal.

 

Professora e pesquisadora associada do Programa de Pós-Graduação em Ecologia e Conservação da Biodiversidade da Universidade Federal de Mato Grosso (PPG-ECB/IB-UFMT), Cátia Nunes de Cunha conta que, baseado em dados adquiridos em pesquisas, o bioma precisará de cinco décadas para retornar ao que era antes. “A regeneração, baseada nos resultados adquiridos, acreditamos que levará em torno de 50 anos. Caso a intensidade do incêndio seja mais grave, poderá levar mais tempo”, disse Cátia, em entrevista ao Estadão. A professora lembrou, ainda, que áreas que passam constantemente por incêndios têm perda na composição, na estrutura da vegetação e, consequentemente, na perda de habitats para os animais.

Animais ameaçados

A pesquisadora falou também sobre como os incêndios afetam as espécies animais que habitam o bioma. “Há (no Pantanal) populações de animais de outras áreas do Brasil e, inclusive, dos considerados ameaçados. Até agora, as populações desses animais estavam se recuperando. As populações de animais que conseguiram sair da categoria de ameaçadas, hoje, podem estar comprometidas novamente por causa dos incêndios”, observou, citando a onça-pintada como exemplo de recuperação populacional atrativa do turismo no Pantanal.

Segundo Cátia, especialistas da fauna silvestre acreditam que os animais mais velhos, com mais experiência em relação a eventos do fogo, conseguirão sobreviver. Vale lembrar que até a segunda quinzena de setembro, o fogo já havia destruído 85% do maior refúgio de onças-pintadas no mundo.

Prejuízo

Cleber Alho, PhD em Ecologia pela University of North Carolina at Chapel Hill e professor aposentado da Universidade de Brasília (UnB), destaca os danos socioeconômicos causados pelo incêndio no Pantanal. Especialista que trabalha há mais de 30 anos estudando o bioma, ele pontua que, além do dano direto do fogo, há os impactos que perduram por mais tempo. Alho cita o exemplo do turismo ambiental, praticado na região por visitantes de todo o país e também do exterior, que visitam o local justamente para encontrar a abundância de biodiversidade.

 

O professor ressalta que, além da arrecadação com base no turismo, há a pesca de cachara e de pintado, além de outros peixes de valor comercial, afetada devido aos incêndios. Alho explica que a massa queimada é carregada para os leitos dos rios e entra em decomposição orgânica, mas que essa grande quantidade de compostos acarreta em um desequilíbrio no oxigênio e na qualidade da água, o que leva a morte dos peixes. O fogo também destrói as matas ciliares, ou seja, impede o fluxo natural dos rios. “Tem o fator biológico, mas também o fator socioeconômico de quem vive da pesca”, aponta o especialista.

Maior impacto

Segundo o especialista, a estimativa de tempo para a recuperação do Pantanal pode ser ainda maior se a área não for adequadamente protegida e se houver novas ocorrências de incêndios. Embora alguns animais escapem do dano direto do fogo, eles ainda precisam enfrentar a escassez de comida. “Isso impacta a longo prazo a interação que toda fauna tem com a flora e com o meio ambiente”, afirma.

Alho deu o exemplo de uma onça que consegue escapar do incêndio e foge para outra região. “Esses animais não estão dispostos ao acaso, eles são territoriais. Uma onça ocupa em média uma área de 30 quilômetros, então, ela pode fugir do fogo, mas chegar em uma área que já é território de outro predador, ficando sem espaço suficiente para caçar e se alimentar”.

O professor também falou do exemplo das araras azuis, que colocam seus ovos em árvores locais que possuem ocos nos troncos. “As araras também se alimentam dos acuris, o fruto dessas árvores, uma espécie de coquinho. Ou seja, com os incêndios, além do fogo atingir o nicho reprodutivo, o local dos ninhos das aves atinge também o nicho alimentar, afetando toda a estrutura do ecossistema.”

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