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Saúde COVID-19

'Vi minha vida indo embora', conta advogada com 3 comorbidades que superou a covid-19

Vanessa Grimaldi tem asma, hipotireoidismo e obesidade; conheça depoimento emocionado e cheio de detalhes

14/06/2020 23h28
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Por: DILMAN LIMA Fonte: Correio
'Vi minha vida indo embora', conta advogada com 3 comorbidades que superou a covid-19

Não há muito o que dizer do relato da advogada e professora Vanessa Brito de Moura Grimaldi, 40 anos. Ele fala por si só. Basta apenas preparar o leitor para um depoimento extremamente forte e sensível. Um depoimento de quem superou a covid-19 mesmo sofrendo de três comorbidades: asma descompensada, hipotireoidismo e obesidade. Após 11 dias de internamento no Hospital Santa Izabel, entre emergência, quarto e UTI, Vanessa se diz grata por poder reescrever sua história.  

Na sua fala, transcrita aqui, Vanessa não esquece de nenhum detalhe e faz um passo a passo dos dias de luta contra o vírus. Descreve sorrisos que enxergava por detrás das máscaras dos profissionais de saúde, lembra dos números que aferiam a sua oxigenação, se mostra grata a cada funcionário. E diz ter saído dessa com uma nova visão de mundo. “Para que tanta roupa no guarda-roupa? Para que tanto perfume? A vida nos escapa em um piscar de olhos”, lembrou.

 

No dia da alta médica (Foto: Acervo pessoal)

Na sexta-feira, fomos levar o nosso filho mais novo para vacinar contra gripe. Quando voltamos para casa, eu já não conseguia nem mais ficar sentada na sala conversando com minha família. Fui deitar! Medi a temperatura e tava com 37.8 graus de febre. Tomei uma dipirona e perguntei: ‘Meu Deus, o que será? Já fiquei preocupada. Tenho três comorbidades. Sou obesa, tenho hipotireoidismo e asma descompensada. Se fosse covid, tudo estava contra mim.  

Logo em seguida, quando eu levantei, notei que tinha perdido o olfato e o paladar. Tive esse único episódio de febre. À noite, no mesmo dia, meu marido também estava com dores no corpo e com 38 graus. Da mesma forma, perdeu o olfato e o paladar. No sábado de manhã eu já não tinha mais febre, mas senti um cansaço extremo. Meu filho de três anos apresentou um quadro de diarreia.

Liguei para a pediatra de Miguel e ela pediu que ficasse observando. Depois ele teve outros episódios de diarreia e um episódio de febre, mas ficou bem em seguida. Meu marido também se recuperou rápido e meu filho de 20 anos teve somente a perda do olfato e paladar. Na segunda-feira fui em um laboratório particular para fazer o exame de covid-19, que coleta do nariz, e ficava pronto em 48 horas.

 

Acompanhe o relato na íntegra:
“Eu e minha família fizemos o isolamento total desde março, desde que foram anunciadas as primeiras medidas. Meu filho de três anos teve as aulas suspensas e meu mais velho passou a ter aulas da faculdade pela Internet. Meu marido é personal e também passou a fazer os treinos on line. Eu sou advogada e professora e fiquei trabalhando de casa. Tomamos todos os cuidados possíveis. Álcool, máscaras, luvas. Nesse período fomos no supermercado umas quatro ou cinco vezes.

Não temos ideia de como o vírus entrou na nossa casa. Quando o delivery chegava, fazíamos toda a higienização. No dia 12 de maio, uma terça-feira, tive dois episódios de uma tosse seca, meio irritativa. Como eu tenho rinite alérgica e asma, fiquei achando que poderia ser uma alergia. Tomei um antialérgico. No dia seguinte acordei com dores no corpo. O nariz também estava um pouco entupido, mas até então segui a vida normalmente.

Só que na segunda-feira mesmo eu já comecei a sentir cansaço. Aí fiquei mais preocupada. Na terça-feira a falta de ar piorou e ainda não tinha o resultado do exame. Na quarta-feira, não consegui levantar da cama até a porta do banheiro. Um cansaço extremo. Meu marido disse: ‘você vai para o hospital agora’. Meu filho me carregou. No celular, chegou o resultado do exame positivo para coronavírus. Fui atendida muito rapidamente no Hospital Santa Izabel. Minha saturação tava muito baixa, na faixa de 90. Fui encaminhada direto para o cateter de oxigênio.

Me levaram para fazer uma tomografia e 50% do meu pulmão estava comprometido por uma pneumonia. Isso era dia 20 de maio, de quarta-feira para quinta. Os médicos já entraram com dois antibióticos. A partir daí vivi momentos de terror. Você passa a se sentir em uma guerra. Todos estavam vestidos com aquelas roupas de astronauta. Ouvi pessoas gritando na emergência. Muitos idosos chamando pelos filhos, que não poderiam estar ali. Cenas terríveis.

A própria equipe médica não pode ficar muito tempo com você porque tem vários outros casos ao mesmo tempo. Eu tava em uma situação que não consegui nem me mover. Eu não conseguia virar meu corpo. Estava sem forças até para pedir ajuda. A tensão entre os profissionais de saúde era muito grande. Você via nos olhos deles essa tensão. Dava para enxergar nos olhares a exaustão e o cansaço.

Eu vi de perto a guerra que eles estão vivendo. Deu pra ver alguns deles chorando. Estão lutando pelas nossas vidas. Em poucas horas que eu estava na emergência vi sete intubações. Sete pessoas intubadas. A gente entra em desespero e pensa: ‘a próxima pode ser eu’. Minha saturação não subia. Chegou uma médica extremamente atenciosa, um anjo. Ela disse que minha asma estava descompensada e isso tinha agravado o quadro. Por isso, iria entrar com corticoide. Também me deram anticoagulante.

Eles agiram muito rápido. Na quinta-feira à noite acharam que eu tive uma melhora e me transferiram para um apartamento. Lá, por volta de meia-noite, fiquei agitada porque não consegui me mover para nada. A solidão é muito grande. Quando a gente vê na televisão que a covid-19 é uma doença em que o paciente fica solitário, você até se comove. Mas só mesmo passando na pele para compreender a dimensão. É realmente uma morte solitária.

Sem falar no sofrimento físico. Recebi mais de 25 furos no pulso para gasometria arterial, mais de 22 injeções de anticoagulante na barriga. Não tinha mais veias de acesso no braço e teve que fazer no pé. A dor era extrema. Bem, foi nesse momento que comecei a piorar muito no quarto. Tive a certeza que não iria resistir. À essa altura eu tava na máscara de oxigênio tomando 15 litros por minuto e a saturação só caindo. Uma dor de cabeça absurda.

Nesse dia eu chorei muito. Foi o único momento que eu chorei. Vi minha vida indo embora. Começaram a vir vários flashes na minha cabeça. Via meus filhos, meu marido, minha família. E comecei a pensar: ‘Meu Deus do céu, o que eu fiz da minha vida? Ou o que eu não fiz da minha vida? O que eu deixei de fazer? Cara a cara com a morte você começa a repensar tudo, os valores, o que realmente importa, sabe?

Você se pergunta o porquê de um dia a dia tão corrido. Pensei em meu filho de três anos me dizendo: ‘mamãe, por favor, larga o celular e vem brincar comigo’. Aquilo me rasgou a alma! Eu chorava copiosamente dentro daquele quarto sozinha. Pensei nas vezes que meu filho mais velho disse: ‘mãe, eu só queria um tempinho pra gente conversar’. E eu na minha ignorância achava que o que eu devia dar a ele era trabalhar, trabalhar e trabalhar para lhe oferecer tudo do bom e do melhor materialmente falando.

No momento em que a gente tá de cara com a morte, a gente vê que nada disso importa. Absolutamente nada! Eu só pedia a Deus uma chance, uma nova oportunidade para ter uma vida mais simples e dividir os momentos com meus filhos e familiares. Pra que a melhor escola? Pra que os melhores passeios? Pra que aquele tanto de roupa no guarda-roupa? Pra que aquele tanto de perfume? Pra que as melhores viagens? Pra que tudo isso no piscar de olhos e vida escapa das nossas mãos e a gente não tem mais o que fazer? Me sentia impotente, incompetente, inútil. Nada estava em minhas mãos para mudar a minha situação.

Nesse momento a equipe médica entrou no quarto e saiu com minha maca correndo pelos corredores do hospital para dar tempo de chegar ao cilindro da UTI para intubação. Minha saturação tava 75 com vazão máxima de oxigênio. Segurei na mão da enfermeira e disse: ‘pelo amor de Deus, não deixe me intubar. Porque se me intubarem eu não vou voltar mais. Eu preciso ver meus filhos! Eu preciso consertar as coisas! Eu preciso rever a minha vida. Preciso dessa chance’.

Tudo estava nas mãos de Deus. Deus! Era ele! Eu entreguei a minha vida a ele: ‘Se você acha que eu mereço essa chance de consertar as coisas e de levar minha mensagem ao máximo de pessoas que eu puder na vida eu vou fazer’. Lá na UTI já tinham dois médicos me esperando para fazer a intubação. Um deles disse: ‘não, vamos tentar aqui uma outra forma’. Eles me viraram de bruços e isso liberou um pouco o meu pulmão. Aí a saturação começou a subir gradativamente: 85, 86, 87. Ali era eu e minha fé.

O médico ficou feliz e a saturação chegou a 90, 91. Depois eu soube que aqui fora se formou uma corrente de oração tão grande que eu não consigo externar minha gratidão a todas as pessoas que pararam um minuto que fosse do dia a meu favor. Independente de religião. Eu sou espírita kardecista. Meu centro fez uma campanha linda, uma corrente de cura a meu favor. Mas foram pessoas de todas as religiões: católicos, evangélicos, candomblecistas, umbandistas. Todos se uniram! Não tenho palavras para expressar minha gratidão.

Comecei a fazer meditação e só me permiti pensar em coisas positivas. Porque antes eu me imaginava morrendo, deixando a minha família, que sequer iria poder se despedir de mim. ‘Quem vai resolver as coisas’, pensava. Depois, não me permitia ver notícias ruins, buscava no Google pacientes com comorbidades curados da covid. O carinho, o amor e a fraternidade da equipe de enfermagem me tocou muito. O pessoal da copa, limpeza.

São pessoas que têm família em casa esperando por elas. Algumas têm meses que não vêm seus entes queridos. Muitos me disseram que já tinham se contaminado. Outros já tinham sido internados. Eu reconhecia eles pelos olhos. Sempre com mensagens otimistas. Via os sorrisos atrás das máscaras. As técnicas desembaraçavam o meu cabelo com todo amor. Me davam banho.

Uma delas escreveu um cartaz que dizia: ‘Estaremos juntas nesse plantão. É São João, você sabia? A noite vai ser animada’. E começou a cantar música de forró dentro do quarto. Pediu na copa arroz doce porque era São João. Me deu comida na boca como se fosse uma filha dela, com todo o amor. Ela me fez sorrir em um dos momentos mais difíceis. Muitas técnicas de enfermagem rezavam comigo. O pessoal da limpeza sempre com uma palavra de incentivo: ‘você vai sair dessa’. A equipe de fisioterapia foi sensacional.  

Todos os dias no horário de descanso eles rezavam pelos pacientes em vez de descansar. O rapaz que levava o almoço dizia que eu ia sair dessa. Todos eles se comoveram muito com meu caso porque eles me viram descer para a UTI com a saturação 85 e a pressão 24 por 13. Eles viram a gravidade. Quando eles me viram subir de volta toda a equipe chorou. Eles viam a minha vontade de viver, testemunharam a minha luta.

Chegou o dia que eu consegui sentar na cama. Chorei de alegria. Passados mais dois dias consegui me levantar da cama e tomar banho no chuveiro com o cilindro de oxigênio. Foi devagar, no meu tempo. Até que eu consegui tirar meu oxigênio. Depois consegui andar. Tive alta depois de 11 dias, mas ainda estou em processo de recuperação. Não tenho força para fazer as coisas em casa.

É uma doença devastadora. As pessoas não têm noção. As pessoas fazem piadas, não respeitam o isolamento. Mas eu estou retomando a minha vida. A palavra que eu uso hoje é 'desacelerar'. Muita coisa que eu achava que era importante agora não é mais. Outras ganharam ainda mais importância. É uma nova história".

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