Brasil Trump e Milei
Planalto vê articulação com Trump e Milei para impulsionar Flávio
Para o Planalto, movimentos do presidente dos EUA e da Argentina são para turbinar a campanha presidencial do filho 01, mesmo sob pena de ampliar tensão diplomática
29/07/2026 07h33
Por: João Araújo Fonte: Correio Braziliense

Integrantes do Palácio do Planalto já trabalham com a possibilidade de que a crise diplomática entre Brasil e Argentina seja parte de um contexto político mais amplo. Crescem as desconfianças entre fontes do governo ouvidas pelo Correio de que são coordenadas as recentes movimentações do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, do argentino Javier Milei e do candidato do PL à Presidência, Flávio Bolsonaro. O objetivo: colocar em prática uma articulação para fortalecer a candidatura do filho do ex-presidente Jair Bolsonaro.

Auxiliares do presidente Luiz Inácio Lula da Silva avaliam que tanto as declarações de Trump sobre o Brasil quanto a participação de Milei na convenção que lançou a candidatura presidencial de Flávio, sábado passado, são claros sinais de apoio externo ao projeto eleitoral do senador. Para integrantes do núcleo político do governo, os dois representantes da extrema-direita estariam fazendo acenos que ajudam a projetar o filho 01 de Bolsonaro antes mesmo do início oficial da disputa à Presidência.

A percepção do governo ganhou força depois da sequência de episódios em que os três atores estão incluídos. Na avaliação de interlocutores do Planalto, as manifestações de Trump contra o governo Lula e o discurso de Milei em defesa de Flávio — que abriu uma inédita crise diplomática entre Brasil e Argentina — não são fatos isolados, mas sim movimentos convergentes para conferir legitimidade internacional ao senador e associá-lo ao campo conservador em que os dois presidentes são expoentes.

A leitura ocorre em meio ao agravamento da crise diplomática entre Brasil e Argentina. Após as declarações de Milei na convenção do PL, em São Paulo, o governo brasileiro chamou o embaixador do Brasil em Buenos Aires, Julio Bitelli, para consultas — medida sem precedentes na história recente da relação entre os dois países. O Ministério das Relações Exteriores (MRE) também passou a monitorar de forma permanente os movimentos do governo argentino.

A permanência de Bitelli em Brasília, nos próximos dias, é uma forma de restabelecer canais de diálogo e evitar um agravamento das tensões bilaterais. Ao mesmo tempo, o Itamaraty mantém a interlocução com a representação argentina no Brasil.

Água na fervura

Apesar das tensões, a orientação de Lula permanece a mesma: evitar uma escalada nas animosidades. Como o Correio mostrou, ele tem resistido a responder diretamente às provocações de Milei, deixando a condução da crise sob responsabilidade do MRE. A estratégia busca preservar os canais institucionais entre os dois países e impedir que o embate diplomático seja convertido em ativo político para a oposição.

Nesse contexto, a permanência do embaixador em Brasília é uma tentativa de impedir que a crise produza danos permanentes à relação bilateral. No Planalto, contudo, a avaliação é de que a iniciativa diplomática não altera a percepção de que existe uma convergência política entre Trump, Milei e Flávio — cuja meta é influenciar o ambiente político brasileiro às vésperas da eleição.

Se o Planalto e o Itamaraty vêm se esforçando para um distensionamento com Buenos Aires, ontem a o governo Milei deu um passo nessa mesma direção. O porta-voz da Presidência argentina, Adrian Ravier, reduziu o impacto da crise diplomática ao afirmar que "sempre houve insultos de ambos os lados". Em coletiva, ele assegurou que trata-se de "diferenças ideológicas e políticas", mas esclareceu que "a Argentina nunca as levou ao plano diplomático". Também destacou que a intenção não é afetar as relações comerciais entre os países.