Política Fábio Félix
Fábio Félix critica candidatura de Michelle ao Senado: “Vai lá para tensionar o Supremo”
Em entrevista ao Correio, deputado distrital também fala sobre a candidatura à Câmara Federal, a disputa pelo Senado e o apoioa distritais na campanha
18/07/2026 07h00
Por: João Araújo Fonte: Correio Braziliense

O deputado distrital Fábio Félix (PSol-DF), o mais votado da história do Distrito Federal, concedeu entrevista exclusiva ao Correio para falar sobre a pré-candidatura à Câmara dos Deputados em outubro. Na conversa, o distrital classificou o tarifaço imposto pelos Estados Unidos (EUA) ao Brasil como uma tentativa de interferência direta nas eleições, criticou a possível candidatura de Michelle Bolsonaro ao Senado pelo DF, detalhou os motivos que o levaram a deixar a Câmara Legislativa em busca de uma vaga no Congresso, avaliou os desafios de disputar espaço em um Legislativo federal de maioria conservadora e falou sobre o legado que deixa, e a sucessão que articula, na Câmara Legislativa do DF.

“O que está em jogo não são as tarifas. É a interferência nas eleições”

Para Félix, o debate em torno do tarifaço anunciado pelo governo americano contra produtos brasileiros não deveria ser lido como uma disputa comercial, mas como uma tentativa de ingerência política. “O que está em jogo agora não são as tarifas. Não é a lealdade no comércio internacional (…) O que está em jogo agora é a interferência dos Estados Unidos nas eleições brasileiras”, afirmou. 

O deputado diz que houve o envio de “lobistas” a Washington por aliados de Bolsonaro, no caso do deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL-SP) e, mais recentemente, o pré-candidato à Presidência da família, como parte de uma articulação para pressionar o governo americano contra a reeleição de Lula. “O que eles foram pedir nos Estados Unidos era uma estratégia do governo Trump para debilitar o governo Lula, para impedir a reeleição do Lula”, disse, comparando o episódio à histórica interferência dos EUA em golpes na América Latina durante a Guerra Fria.

O deputado critica também a conduta da família Bolsonaro no episódio: “Flávio Bolsonaro não merece, é uma vergonha nacional, independente da sua posição política, ele não merece sentar na cadeira de presidente da República (…) já que ele optou por conspirar junto com uma nação estrangeira contra o seu próprio país.” Para Félix, o efeito político do tarifaço deve se voltar contra o próprio bolsonarismo: “Eu apostaria hoje que isso (…) pode prejudicar o bolsonarismo e o projeto deles, que eles estão dando tiro no pé, conspirando contra o Brasil diretamente e abertamente.”

Michelle Bolsonaro: “Não vai defender os interesses do DF”

Na mesma linha, o deputado criticou a possível candidatura de Michelle Bolsonaro ao Senado pelo Distrito Federal, associando-a à estratégia mais ampla da família de lançar candidaturas em diferentes estados. “É uma aberração que essa família vá plantando candidatos em todas as unidades da Federação (…) agora a Michele pelo Distrito Federal”, disse, citando também os casos de Carlos Bolsonaro em Santa Catarina e Eduardo Bolsonaro em São Paulo. Para Félix, a estratégia real por trás de uma eventual candidatura de Michelle não seria representar o DF, mas pressionar o Judiciário: “Ela vai lá para tensionar o Supremo contra as condenações do marido dela (…) Ela não vai para lá para defender os interesses do DF.” O deputado também relacionou o histórico do bolsonarismo a danos diretos à cidade, citando a pandemia e os ataques de 8 de janeiro de 2023: “A destruição do 8 de janeiro foi provocada a partir dos gatilhos e discursos de Bolsonaro. Foi uma destruição que o DF pagou a conta.”

“Ficar na zona de conforto é o primeiro passo para a derrota”

Questionado sobre por que decidiu deixar a Câmara Legislativa para disputar uma vaga no Congresso, Félix afirmou que não encara o mandato como carreira, mas como instrumento de luta: “Estar aqui é para cumprir um papel, defender causas.” Para ele, a decisão também é um gesto de ousadia política: “Ficar na zona de conforto é o primeiro passo para a derrota, porque a derrota não é só eleitoral, é a derrota de um projeto político.” O deputado lembrou que o PSol nunca elegeu um deputado federal pelo Distrito Federal e que pretende ser o primeiro: “É a primeira vez que o PSol tem a possibilidade de ocupar uma vaga no Congresso Nacional pelo DF.”

Um Congresso “desconectado da realidade da população”

Sobre os desafios de concorrer a uma vaga Congresso, hoje, dominado pela direita e pela extrema-direita, Félix foi direto: “A esquerda e a centro-esquerda não chegam a 130 deputados dos 513 deputados federais. Isso, na minha opinião, não é representativo daquela parcela da população que se diz de esquerda.” Segundo ele, a maioria atual do Legislativo federal é “fisiológica, ligada ao orçamento secreto e à corrupção”, somada a um “crescimento vertiginoso” da extrema-direita. Félix defendeu que sua candidatura se insere num esforço nacional de ampliar a bancada do PSol, que classificou como “a única bancada que votou 100% contra a PEC da bandidagem”.

O legado na CLDF e a sucessão

Ao ser questionado sobre o que deixa como legado na Câmara Legislativa, Félix destacou três pontos: a representatividade de um mandato LGBTQIA+ que, segundo ele, tratou “de todos os temas da cidade” e não apenas de pautas identitárias; o fortalecimento da Comissão de Defesa dos Direitos Humanos, que passou de cerca de 60 ou 80 denúncias por ano para mais de 2 mil; e a aprovação da lei dos pontos de apoio para entregadores de aplicativo, que classificou como pioneira no país: “Ela virou lei no Distrito Federal e é a primeira do Brasil.” 

O deputado afirmou apoio integral à reeleição do deputado distrital Max Maciel (PSol-DF) e destacou a chapa do partido para as eleições distritais, formada por nomes como Keka Bagno, a professora Patty Ramiro e a médica Natália Matias. “O nosso objetivo é manter uma bancada do PSol na Câmara Legislativa. Então, a gente não quer perder essa vaga”, afirmou.