Política Eleições 2026
Crise entre Michelle e Flávio embaralha a campanha no DF
Uma possível saída da ex-primeira-dama do páreo significa a perda de uma vaga no Senado, complica as alianças locais e abre uma guerra pelo espólio de seus votos entre Kicis, Ibaneis e Coelho
06/07/2026 08h55
Por: João Araújo Fonte: Correio Braziliense

A crise entre Michelle Bolsonaro e Flávio Bolsonaro (PL-RJ) deixou de ser uma briga de família para se transformar numa fratura política que pode marcar a eleição de 2026: a clivagem entre um discurso de afirmação feminina da ex-primeira-dama e a persistência da misoginia no coração do bolsonarismo. A crise familiar desorganiza a candidatura presidencial de Flávio, constrange Jair Bolsonaro a tomar partido contra a própria mulher e ainda embaralha a sucessão no Distrito Federal.

Ao se apresentar como vítima de humilhação, desrespeito e sabotagem por parte do enteado e de seus aliados, Michelle encarnou, para uma parcela do eleitorado conservador feminino, a reação contra um ambiente político dominado por homens que ainda enxergam a mulher como coadjuvante. O primogênito de Jair, por sua vez, tornou-se o rosto de um bolsonarismo incapaz de esconder sua velha herança machista justamente quando mais precisa das mulheres para chegar ao Planalto.

O estopim foi o vídeo de 27 minutos em que Michelle expôs o mal-estar com o enteado, relatou ter sido maltratada, desrespeitada e humilhada e deu dimensão pública a uma disputa que corria nos bastidores do PL havia meses. A ex-primeira-dama não falava apenas de ressentimentos domésticos. Ela encarnou uma luta por espaço dentro da direita, entre o projeto dinástico dos filhos de Jair Bolsonaro e a tentativa de construir, a partir do PL Mulher, uma plataforma própria de poder, com influência sobre candidaturas femininas, evangélicas e conservadoras.

A situação se agravou quando Michelle esvaziou o ato organizado por Flávio com mulheres em Brasília — evento concebido para reduzir a rejeição do senador nesse segmento — e, na sequência, renunciou ao comando do PL Mulher, depois de fracassar uma tentativa de mediação conduzida por Valdemar Costa Neto. A renúncia foi um recado político. Ao afirmar que as mulheres precisam ocupar os espaços de decisão e poder, Michelle reposicionou a crise no terreno simbólico mais sensível da campanha.

A briga não era apenas por influência sobre o ex-chefe do Executivo ou por vagas na chapa de 2026, mas pela narrativa de quem representa as mulheres dentro do campo conservador. A esse movimento se somou a fala de Paulo Figueiredo, aliado do clã, que atacou o voto feminino com grosseria e arrogância. A demora de Flávio em repudiar o episódio consolidou a impressão de que, em torno de sua candidatura, persiste um ambiente hostil à autonomia política das mulheres.

O conflito doméstico ganhou dimensão ideológica: a ex-primeira-dama se rebelou contra a misoginia do próprio bolsonarismo. E Flávio acabou associado a isso. Foi aí que Jair Bolsonaro entrou em cena, não como árbitro, mas como patriarca. Para evitar que a candidatura de Flávio desmoronasse, o ex-presidente foi levado a fazer o que já fizera em outro momento da vida pessoal: apoiar um filho em detrimento da mulher.

Olho nas pesquisas

Em 2000, quando ainda era deputado federal, lançou Carlos Bolsonaro para vereador do Rio justamente quando Rogéria Bolsonaro, então sua esposa, disputava a reeleição à Câmara Municipal. Carlos venceu; Rogéria foi derrotada. Agora, a lógica se repete em escala muito maior. Ao optar por Flávio como herdeiro do espólio eleitoral e não conter o cerco contra Michelle, Jair sacrifica a mulher para preservar a primazia do filho. O problema é que o custo político da escolha é muito mais alto do que no passado, porque Michelle não é apenas a esposa do líder da extrema-direita, tornou-se um ativo eleitoral decisivo nas eleições presidenciais.

Michelle é hoje a figura mais forte do bolsonarismo junto ao eleitorado feminino e evangélico, exatamente onde Flávio mais patina. A pesquisa BTG/Nexus desta semana mostrou o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) com 47% das intenções de voto no segundo turno, contra 44% do senador. Entre as mulheres, a distância é bem maior: 55% a 36% a favor do petista. Em outras palavras, o grupo que deveria ajudar Flávio a romper a barreira feminina é o mesmo que está sendo repelido pela crise familiar.

A briga com Michelle implode o esforço do senador de se diferenciar da herança misógina do pai com eventos para mulheres, pautas sociais e até gestos calculados. Michelle converteu-se numa muralha eleitoral, que mostra a incapacidade de o bolsonarismo lidar com uma liderança feminina autônoma sem recorrer ao silenciamento, ao paternalismo ou ao ataque.

Lula sai ganhando com a crise. O presidente continua competitivo no conjunto do eleitorado, mas preserva sua dianteira justamente no segmento que mais resiste a Flávio. A crise na família Bolsonaro não cria, por si só, votos para o petista; o que ela faz é impedir que o bolsonarismo reduza sua desvantagem entre as mulheres. Numa eleição polarizada, isso pode decidir a parada.

Flávio conta ainda com o núcleo duro conservador e evangélico. Mas sem Michelle como fiadora de um diálogo com o público feminino, sua candidatura corre o risco de ficar confinada ao mesmo teto eleitoral que derrotou Jair Bolsonaro em 2022.

Efeito candango

No Distrito Federal, os efeitos da crise podem ser devastadores. A ex-primeira-dama lidera a disputa ao Senado e é tratada como favorita quase incontestável. Sua eventual saída do páreo significaria, para o bolsonarismo, a perda de uma vaga praticamente assegurada e abriria uma guerra pelo espólio de seus votos entre nomes como Bia Kicis (PL), Ibaneis Rocha (MDB) e Sebastião Coelho (Novo).

Mas o impacto maior recairia sobre a governadora Celina Leão (PP). Michelle é sua principal cabo eleitoral no campo conservador, especialmente entre evangélicos e mulheres de direita. Sem ela no palanque, Celina perde densidade política, capilaridade social e poder de mobilização. O que hoje parece uma reeleição administrável pode virar uma disputa em aberto ao Palácio do Buriti. Mas Celina afirma que Michelle não vai desistir da campanha.

A eventual retirada da ex-primeira-dama muda o cenário do DF. O eleitorado conservador, hoje concentrado em torno de sua candidatura ao Senado, pulverizaria-se. Ibaneis ganharia margem para reorganizar o tabuleiro. Bia Kicis disputaria a herança bolsonarista. A esquerda, por sua vez, deixaria de enfrentar uma vaga praticamente fechada e passaria a enxergar com mais nitidez oportunidades que hoje parecem remotas. A senadora Leila do Vôlei (PDT) deixa de ser o segundo para ser o primeiro voto de uma parcela do eleitorado de Michelle. Não seria apenas uma troca de nomes, mas uma reconfiguração informal de alianças, palanques e estratégias.