
A mudança na presidência da Segunda Turma do Supremo Tribunal Federal (STF), prevista para ocorrer em agosto, representa uma guinada no controle processual de um dos casos mais sensíveis da atualidade: o do Banco Master. Seguindo o sistema de rodízio anual por antiguidade estabelecido pelo regimento interno da Corte, o ministro Luiz Fux assumirá o comando do colegiado no lugar do decano Gilmar Mendes. Exercerá o posto até agosto de 2027 e, nos bastidores, interlocutores do futuro presidente da turma apontam que ele deve acelerar a tramitação do caso envolvendo da instituição que era controlada por Daniel Vorcaro.
Embora a composição do grupo permaneça inalterada, a saída de Mendes da presidência retira dele o "poder da agenda" — a prerrogativa exclusiva de definir as datas dos julgamentos e gerenciar o fluxo das ações, inclusive após pedidos de vista. Essa troca de comando é observada como um revés para a estratégia de defesa de Vorcaro.
Historicamente, Fux mantém uma posição de combate à corrupção alinhada aos métodos da Operação Lava-Jato, o que o aproxima do relator do caso Master, ministro André Mendonça. Especialistas apontam que a convergência metodológica e ideológica entre o relator e o novo presidente deve acelerar o trâmite processual das ações ligadas à instituição liquidada pelo Banco Central.
"Um hipotético alinhamento metodológico — e possivelmente ideológico — pode, sim, agilizar o ritmo da pauta dos julgamentos relacionados ao caso Master. O conteúdo dos julgamentos, sob a perspectiva do caráter punitivo ou garantista, contudo, está mais relacionado ao todo da turma e nem tanto à figura do presidente", pondera o advogado Guilherme Alonso, especialista em direito penal.
Gilmar tem sido a voz mais crítica à condução do inquérito, comparando os métodos do relator do caso, ministro André Mendonça, a "tristes reminiscências" da Lava-Jato e questionando a necessidade de prisões preventivas. Sob a nova presidência, espera-se que a gestão da pauta seja coordenada em harmonia com a relatoria, eliminando o fator surpresa que marcou sessões recentes.
Um exemplo da importância do controle da pauta ocorreu no último dia 16, quando Gilmar pautou, sem aviso prévio aos colegas, a soltura de Henrique e de Felipe Vorcaro — pai e primo do ex-banqueiro, respectivamente. A manobra foi rebatida por uma reação rápida de Mendonça, que levantou o sigilo de relatórios da Polícia Federal (PF) expondo o que chamou de "maior fraude financeira da história do país".
Do ponto de vista técnico, a liberação intempestiva de documentos e de quebras de sigilo financeiros às vésperas de julgamentos é criticada por violar o direito de defesa e comprometer a paridade de armas dentro do processo. "A defesa sempre deve ter acesso a documentos e informações técnicas com tempo hábil para preparação, sob pena de violação às garantias da ampla defesa e do contraditório", adverte Alonso.
Segundo Mendonça, as investigações revelaram contornos de "crime organizado mafioso", com indícios de dilapidação do Fundo Garantidor de Crédito (FGC), uso de armamento pesado (fuzis e metralhadoras) e tentativas de comprar o silêncio de testemunhas. A manutenção dessas restrições de liberdade pela Corte insere-se em um debate complexo sobre os contornos da jurisprudência em operações de grande porte.
"A prisão preventiva deve sempre estar amparada em seus requisitos legais, sendo absolutamente vedada a sua utilização como ferramenta de coerção para a colaboração premiada", explica o criminalista. Ele acrescenta, contudo, que "no caso em questão, realmente parece se tratar de controvérsia complexa, de extrema gravidade e que demanda atuação intensa do Poder Judiciário".
A professora Vera Chemim, advogada constitucionalista, destaca que a gestão de Fux na Segunda Turma deve ser focada na análise técnica dos fatos, não deve envolver pautas de última hora, como a decisão de Gilmar de pautar a análise das prisões. Mas deve exigir que o caso não encontre travas na Corte, inclusive rejeitando recursos que têm como objetivo apenas protelar a análise do caso.
"Com o seu poder de pauta, Fux deverá trabalhar em conjunto com o relator do caso Master, colhendo maiores informações e disponibilizando seu apoio para que aquele julgamento seja realizado da forma mais rápida possível. Até porque, Fux sempre se mostrou extremamente rigoroso com crimes de corrupção e lavagem de dinheiro, conforme se pode lembrar desde a época da Operação Lava-Jato, em que ele fazia parte da turma em que os ministros eram considerados "punitivistas", em oposição a outra turma em que Gilmar Mendes costumava afirmar que eram "garantistas'", destaca Vera.
A dinâmica de votação na Segunda Turma também apresenta um equilíbrio delicado devido à composição atual. Embora o colegiado tenha cinco integrantes, o ministro Dias Toffoli se declarou suspeito, em fevereiro, após a Polícia Federal (PF) apresentar um documento de 200 páginas com indícios de conexões entre ele e Vorcaro.
Com Toffoli afastado, restam apenas quatro ministros aptos a votar: Gilmar, Mendonça, Fux e Kassio Nunes Marques. Esse cenário pode ser tecnicamente favorável aos investigados, pois, em matéria criminal, o embate beneficia a defesa.
Entretanto, Nunes Marques tem acompanhando os votos de Mendonça e Fux pela manutenção das medidas cautelares, resultando em decisões de 3 votos a 1 contra os interesses do grupo Master. A ascensão de Fux à presidência consolida esse bloco e dificulta movimentos para postergar decisões ou alterar a jurisprudência por meio da pauta.
"O caso em julgamento no STF é único em matéria de complexidade operacional e valores envolvidos. Dito isso, a rigidez no tratamento pelo STF dos envolvidos sinaliza às instâncias inferiores que crimes dessa natureza podem ser tratados com o mesmo rigor que qualquer outra organização criminosa não financeira", analisa Alonso.
Justiça TSE quer parecer do MP antes de decisão sobre recurso de Garotinho
Justiça Kassio diz que não há alerta de interferência nas eleições brasileiras
Justiça TSE vai trabalhar para diminuir a abstenção no segundo turno Mín. 18° Máx. 27°


