
Um dia depois de o ex-governador Ibaneis Rocha divulgar um vídeo em suas redes sociais, anunciando um "realinhamento de posições" com a governadora Celina Leão, a atual chefe do Buriti afirmou que seu antecessor "tinha uma expectativa de continuar governando o Distrito Federal, o que não poderia acontecer". "Isso é subestimar a capacidade de uma mulher de governar, de ter autonomia para tomar as decisões", completou.
Em meio ao desgaste público com o ex-governador, Celina Leão afirmou, em entrevista exclusiva ao Correio, ter sido surpreendida pelas declarações de Ibaneis e negou qualquer movimento político contra o partido dele, o MDB.
"Talvez eu tenha tomado decisões duras que desagradaram algumas pessoas próximas a ele, mas o MDB não é só o (ex) governador Ibaneis. O partido tem cinco deputados distritais e um deputado federal que precisam ser ouvidos e têm excelente relação comigo'", afirmou. Segundo ela, os parlamentares da legenda permanecem alinhados ao governo.
Entre as decisões que teriam desagradado ao grupo político mais próximo a Ibaneis, Celina citou as mudanças na direção do Banco de Brasília (BRB), cortes no orçamento e a troca do secretário de Economia do DF, com a nomeação de Valdivino de Oliveira. A governadora destacou, ainda, que sua gestão será "transparente, tecnológica e humana".
"Hoje eu monitoro a cidade inteira em tempo real. Sei quantas pessoas estão na fila dos hospitais, quantos crimes acontecem, como estão os gastos públicos. Estamos tomando decisões baseadas em dados e na demanda da população", enfatizou. Sobre a possibilidade de diálogo com Ibaneis, ela disse que "sempre esteve aberta ao diálogo". "Mas, hoje, preciso estar focada nos problemas da cidade. Minha preocupação não é campanha. É governar", afirmou.
Ontem, Ibaneis optou por calibrar o discurso, mesmo após a governadora subir ainda mais o tom e declarar que não será submissa e fará um governo com a sua marca. Celina também citou a "herança" (de R$ 4 bilhões) de deficit nos cofres do GDF, além do rombo (de R$ 21,9 bilhões) no BRB.
Apesar disso, o ex-governador negou que haja confronto entre ele e Celina. "Vamos continuar nos respeitando". Perguntado se o MDB apoiará os projetos da governadora na Câmara Legislativa, respondeu que "é tradição do MDB dar estabilidade política". Para Ibaneis, nem o tom firme, nem as declarações de Celina em resposta às suas cobranças e do seu partido, representam, neste momento, ruptura da aliança entre as duas legendas. "Na política não existe nada definitivo. Sou do diálogo e quero o bem de Brasília."
As divergências entre Celina Leão e Ibaneis Rocha repercutiram no mundo político. A senadora Damares Alves (Republicanos) reforçou apoio à governadora. "Ibaneis rompeu com ela, mas eu não rompi", comentou. A parlamentar é do mesmo partido de Gustavo Rocha, ex-secretário da Casa Civil do DF e apontado como vice na chapa de Celina ao GDF.
O distrital Thiago Manzoni (PL) também reforçou apoio à governadora. "Ela tem feito um esforço enorme para reestruturar o DF e tem o meu apoio. O líder do governo na CLDF, deputado Hermeto (MDB) disse que "está com o partido", mas ressaltou que sua permanência no cargo depende da governadora Celina Leão.
Já o deputado distrital Pastor Daniel de Castro (PP) avaliou que houve precipitação na interpretação das declarações do ex-governador Ibaneis Rocha sobre um possível rompimento político. "Vi o vídeo do ex-governador Ibanes e em nenhum momento ele falou de ruptura. Está falando de realinhamento", destacou.
Questionado sobre um possível acirramento político, Daniel de Castro reforçou a necessidade de equilíbrio. "Eu acho que não, espero que não. Para o meu caso, se o Ibanes rompeu com a Celina, eu estou com a Celina. Celina é do meu partido, eu ficarei com ela em qualquer situação. Mas nós marchamos sete anos e meio juntos, acho que é momento de serenidade", declarou. Para ele, a divisão enfraquece o grupo governista. "Quanto mais a gente dividir, mais a esquerda se fortalece", lembrou.
Depois de o MDB anunciar que não abre mão de estar na chapa majoritária para as disputas ao GDF e ao Senado, o deputado federal Rafael Prudente afirmou que "se sente pronto para assumir qualquer posto". "O governador abriu mão de concluir o governo para entregar o GDF ao PP por conta de uma aliança partidária combinada, mas as sinalizações dadas desde então foi que o MDB está fora da chapa majoritária, uma vez que o PL aparentemente ocupará as duas posições apoiadas pelo PP no Senado e o vice anunciado de Celina (o ex-secretário da Casa Civil, Gustavo Rocha) é do Republicanos", disse Prudente.
Para ele, o MDB "não pode apagar um período de oito anos de entregas à população e sequer estar na composição de uma chapa majoritária". O nome de Prudente é ventilado como um possível candidato do MDB ao Palácio do Buriti. "Fico feliz pelo reconhecimento das pessoas. Já tem um bom tempo que o nosso nome é ventilado. Mas sigo na minha pré-campanha a deputado federal e quem vai decidir o meu futuro político é o presidente do MDB nacional", ressaltou o deputado. "Ao longo da minha trajetória política, adquiri muita experiência e conhecimento de cidade", acrescentou.
Ao Correio, na noite de ontem, a governadora Celina Leão negou qualquer movimento político contra o MDB e atribuiu o atrito com Ibaneis Rocha a divergências sobre autonomia administrativa. Ela também defendeu mudanças promovidas no GDF e comentou a crise do BRB. Confira, a seguir, os principais trechos da entrevista.
O que a sua gestão faz de diferente?
Dei um olhar muito forte para a saúde pública. Contratamos 170 médicos, assinamos convênio para 200 mil consultas e estamos mais próximos da população. Também lançamos o programa "DF na sua porta", que resolve problemas de zeladoria das cidades em tempo recorde.
A senhora acredita que houve um componente de gênero nesse desgaste?
Acho que as pessoas precisam se preparar para perder o poder. Eu fui muito respeitosa. Não aceito que subestimem minha capacidade de fazer as coisas.
O ex-governador demonstrou incômodo com uma suposta aproximação sua com nomes do PL, como Michelle Bolsonaro. Como a senhora avalia isso?
Nós não estamos em campanha. Como alguém apoia uma pessoa fora de campanha? Tenho amizade antiga com Michelle, Damares e Bia, assim como sempre tive respeito por ele. Mas isso não significa movimento eleitoral.
A senhora teme perder apoio político?
Não. Quando assumi o governo, a base tinha 14 deputados. Nós ampliamos para 17. Não há problema entre a governadora Celina e a Câmara Legislativa. Houve apenas um fato isolado provocado pelo ex-governador.
O secretário Gustavo Rocha segue como nome para vice em 2026?
Essa decisão cabe ao Republicanos. Mas o Gustavo é uma pessoa de altíssimo nível, séria, respeitada pela Câmara. A relação dele comigo foi construída com trabalho, lealdade e respeito.
Qual foi sua posição sobre a compra do Banco Master pelo BRB?
Eu fui contrária a essa possível aquisição. Isso saiu na imprensa. Não havia necessidade dessa fusão. Eu não tinha relação com o Paulo Henrique Costa, tínhamos divergências. Antes mesmo de qualquer operação, já havia dito publicamente que ele não ficaria no governo.
Como a senhora encontrou o BRB ao assumir o governo?
A situação era muito grave. Havia operações com compra de carteiras de fluxo que não permaneciam com o banco, o que é gravíssimo. Tudo isso foi identificado por auditoria contratada pela nossa gestão e encaminhado ao Ministério Público e à Polícia Federal. Herdamos um problema de liquidez, que já foi resolvido. Agora estamos resolvendo a parte contábil, ligada à capitalização.
O GDF colocará recursos no banco?
Não vamos tirar nenhum centavo do Estado para investir nisso. O próprio BRB vai pagar a operação. O banco é importante para a economia do Distrito Federal e continuará sendo, mas com compliance e gestão transparente.
Se estivesse no comando antes, teria tomado decisões diferentes no BRB?
Tudo teria sido diferente. Jamais teria visto o BRB daquela forma. Mulher é muito cautelosa, muito cuidadosa. Mas eu não tinha força política para tomar decisões naquela época. As grandes áreas do governo nunca foram compartilhadas comigo.
Confira a entrevista na íntegra:
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