O Brasil chega a este 8 de março, Dia Internacional da Mulher, com uma estatística desoladora: o país registrou, em 2025, o maior número de feminicídios desde que a lei foi criada. Segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, 1.568 mulheres foram assassinadas por questões de gênero no último ano — um aumento de 4,7% em relação a 2024.
O dado revela que, enquanto a sociedade debate homenagens simbólicas, a violência extrema avança silenciosamente dentro dos lares brasileiros, atingindo o ápice de uma série histórica de dez anos.
A série histórica iniciada em 2015, ano em que o feminicídio entrou no Código Penal, desenha um gráfico de horror. Se no primeiro ano foram 449 casos, o número saltou para 929 em 2016 e não parou de crescer, ultrapassando a marca de 1,3 mil casos durante a pandemia e chegando ao recorde atual.
Para a Delegada Mariana Almeida, Chefe Adjunta da DEAM II, esses números mostram um cenário complexo. “Temos um aumento real da violência, mas também uma maior conscientização para a denúncia. No entanto, o feminicídio é um crime evitável. O silêncio ainda é o maior aliado do agressor”, pontua.
Romper com essa estatística exige entender por que é tão difícil sair do ciclo de violência. A psicóloga e psiquiatra Lidiane Silva explica que o abuso psicológico é o primeiro passo da escalada.
“O agressor usa o gaslighting para fazer a vítima duvidar da própria sanidade. Isso, somado ao vínculo traumático — onde momentos de violência são seguidos por pedidos de perdão —, cria uma prisão emocional”, afirma.
Muitas mulheres permanecem no relacionamento por medo de represálias, dependência financeira ou a esperança vã de mudança do parceiro. “A vigilância constante sobre horários, roupas e amizades são sinais claros de que a situação pode evoluir para algo fatal”, alerta a médica.
A Lei Maria da Penha é a principal ferramenta de combate a esse recorde de mortes. A Medida Protetiva de Urgência (MPU), que deve ser expedida em até 48 horas, afasta o agressor e proíbe qualquer contato. No Distrito Federal, o descumprimento é crime sem direito a fiança por decisão do delegado.
“A mulher não deve esperar a agressão física para buscar ajuda. A injúria e a violência psicológica já são motivos para acionar a rede de proteção”, reforça a delegada Mariana Almeida. A orientação é clara: ao perceber os primeiros sinais de controle, o isolamento deve ser rompido através de conversas com pessoas de confiança e o acionamento dos canais oficiais, como o 190 ou o 180.
Neste 8 de março, a campanha “Não me dê flores” ganha um peso estatístico: o direito à vida é a reivindicação urgente. Especialistas convergem em um ponto: em briga de marido e mulher, a sociedade deve, sim, intervir. Observar mudanças de comportamento em amigas ou familiares e oferecer escuta sem julgamento são passos essenciais para que a vítima sinta segurança para denunciar e sobreviver.