Cinco meses após um aumento tarifário para o transporte público que liga o Entorno ao Distrito Federal, os moradores de regiões ao redor de Brasília sofrem mais um baque em seus orçamentos a partir de hoje. A Agência Nacional dos Transportes Terrestres (ANNT) aprovou reajuste de 2,546% anunciado no último dia 12.
Segundo a ANNT, o reajuste é adotado anualmente com o objetivo de preservar a continuidade e a regularidade do serviço. Entre os fatores analisados para o aumento da tarifa estão: valores do diesel; lubrificantes; pneus; despesas gerais; peças e acessórios; e o valor gasto para o transporte dos passageiros. Com o novo coeficiente que será cobrado, algumas passagens irão ultrapassar o valor de R$ 12.
O aumento irá afetar cerca de 380 mil passageiros que se deslocam diariamente ao DF. Uma dessas pessoas é Maykon Neres, de 20 anos. O morador de Águas Lindas acredita que o valor atual já não é justo, quanto mais um aumento. "Para nós, moradores do Entorno, nunca é bom. Quem precisa vir para o DF todo dia sofre muito com isso", afirmou.
O reajuste assusta o jovem que trabalha em Brasília. Com o valor mais alto, ele teme perder o emprego. "Com esses aumentos, as empresas podem não querer pagar porque fica muito pesado para eles. Tem chances de eu perder meu emprego", acrescentou.
O especialista em mobilidade e economista Wesley Ferro afirma que esse risco é real. "Do ponto de vista do empregador, também há um olhar mais preconceituoso em relação a essas tarifas. A chance de ele desprezar a mão de obra dessa região é muito grande", enfatizou.
Uma das esperanças para os moradores do Entorno é o Consórcio Interfederativo estabelecido entre os governos do DF e de Goiás. Anunciado em fevereiro de 2025, a medida ficaria responsável pela gestão do transporte público semiurbano que trafega entre os municípios do Entorno e a capital federal.
Após um ano do anúncio, o Consórcio ainda não saiu do papel. A Agência afirma que, em 1° de outubro do ano passado, foi enviado um documento contendo sugestões de ajustes na minuta de protocolo de intenções para a constituição do consórcio para os dois governos. Segundo o órgão, não houve avanço por parte dos entes federativos.
Por sua vez, o secretário de Entorno, Cristian Viana, afirma que a agência se retirou das reuniões de negociação entre o GDF e o GO. "A resposta nos pegou de surpresa. Os dois governadores (Ibaneis Rocha e Ronaldo Caiado) sinalizaram que querem subsidiar a passagem. Para eles, esse consórcio vai beneficiar a vida do morador do Entorno", afirmou.
Uma das principais reclamações dos usuários desse modelo de transporte é a falta de qualidade nos veículos. William Christina, 19, comenta que os ônibus estão velhos demais para circular. "Teve um que eu peguei que estava sofrendo em um trecho de subida. Parecia que ele não ia aguentar", disse.
Para o jovem, as condições do transporte são as que mais causam revolta. "Não temos acessos a transportes decentes. São muito antigos e precários. Além da pouca quantidade de veículos disponíveis, ainda temos que andar em um transporte velho", acrescentou.
Cristian Viana comenta que o Consórcio também iria cuidar dessa parte, uma vez que, atualmente, a tarifa paga pelo passageiro é responsável por custear toda a operação do transporte. "Com o subsídio da passagem pelo consórcio, haveria a renovação constante da frota, mais veículos atuando e a agilidade do serviço. Isso tudo estava previsto no consórcio", disse.
As novas negociações ainda não estão previstas para acontecer. Entretanto, as duas partes ouvidas demonstram interesse na continuidade do Consórcio. "A Agência permanece à disposição para colaborar tecnicamente, ressaltando que a formalização do consórcio é de competência exclusiva dos entes federativos", afirmou a ANTT em nota.
O secretário do Entorno, comenta que tentará sensibilizar novamente a Agência. "Iremos conversar novamente com a Agência e iremos encaminhar documentos para as assembleias legislativas dos dois estados para autorizar a constituição do consórcio", disse. Após a aprovação dos documentos, a ANTT poderá delegar os contratos para o consórcio.