Política Incomodo religioso
Desfile em homenagem a Lula na Sapucaí incomoda religiosos
Homenagem feita pela Acadêmicos de Niterói alimenta polarização e abre brecha para a direita explorar nas redes sociais
21/02/2026 09h30
Por: João Araújo Fonte: Correio Braziliense

A homenagem ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva no desfile da escola de samba Acadêmicos de Niterói, no Sambódromo da Marquês de Sapucaí, continua repercutindo. Embora o desfile dificilmente provoque uma migração imediata de votos, o desgaste simbólico é real e, segundo especialistas, tende a alimentar a polarização e pode ter efeitos cumulativos em uma eleição considerada apertada, sobretudo porque a direita deve usar o tema envolvendo a ala dos conservadores retratada em latas de conserva como pauta nas eleições de outubro.

Para o deputado federal Otoni de Paula (MDB-RJ), o governo provocou um distanciamento ainda maior das igrejas cristãs, e essa reaproximação ocorrerá do médio ao longo prazo, o que pode prejudicar o desempenho eleitoral. "Estamos a oito meses das eleições e o outro lado (bolsonaristas) está se aproveitando dessa pauta moral, usurpando e usufruindo do tema nas igrejas. A direita está fazendo um carnaval com isso e a esquerda os presenteou com uma pauta de graça", declarou o parlamentar ao Correio.

Ele disse ainda lamentar o ocorrido no desfile, afirmando que o episódio pode impactar negativamente as eleições presidenciais. "Será uma eleição apertada e não se pode dar ao luxo de perder eleitores. Se Lula não tivesse ido à Sapucaí, ele não perderia votos, mas a ida chancela o que foi mostrado pela escola", afirmou, ressaltando que o governo tinha conhecimento de todos os detalhes e das alas que compunham a homenagem ao presidente da República.

O parlamentar garante que a repercussão negativa não é coordenada pelos bolsonaristas, mas pelo povo evangélico, que se sentiu ofendido. "O movimento que está acontecendo não é bolsonarista. É um movimento em resposta dos conservadores brasileiros, no qual os bolsonaristas estão surfando. É mais sério do que Lula pensa. E, até agora, o presidente não pediu desculpas, não se justificou. O pedido de desculpas não é para os bolsonaristas, é para o povo evangélico, cristão. Ele poderia dizer que respeita a manifestação cultural, mas que não pactua", ressaltou.

O deputado Henrique Vieira (Psol-RJ), da base governista, fez questão de frisar que o evento não foi um desfile do PT nem do governo federal. Ele afirmou que todas as escolas têm liberdade artística para produzir seus espetáculos. "É importante lembrar às pessoas que a escola de samba é livre e que o governo não influenciou, criou, roteirizou ou patrocinou o desfile da escola".

Questionado se o governo federal sabia ou não dos detalhes da homenagem, o parlamentar disse desconhecer a informação, mas afirmou que ficaria preocupado caso isso tivesse ocorrido. "Eu acho que não. E, se o governo procurou ter conhecimento, acho que estava errado, porque, na minha opinião, entra num lugar bem perigoso de controle da narrativa livre de uma escola de samba. Eu desconheço que o governo sabia e se houve algum monitoramento prévio para saber o detalhamento da homenagem", ressaltou.

Vieira explicou que interpretou a crítica como direcionada a um único modelo familiar, defendido por setores mais conservadores e visto como modelo exclusivo. "Todas as outras formas de configuração familiar são vistas como erradas ou promíscuas, como mães solo, filhos criados por avós ou casais homoafetivos. Eu nunca vi um casal homossexual questionando uma família heterossexual", disse o parlamentar, ressaltando que, na avaliação dele, cerca de 70% dos evangélicos devem continuar votando em Lula, enquanto 30% permanecem com os bolsonaristas.

Incômodo

Para o pastor Daniel de Castro, da Assembleia de Deus de Madureira em Taguatinga (Adtag), não se pode admitir que a exposição de convicções religiosas, amparadas pela Constituição Federal, seja tratada como ilícito simplesmente por contrariar visões ideológicas. "Vivemos um tempo preocupante, em que a liberdade religiosa parece, muitas vezes, ter peso diferente a depender de quem a exerce. Quando um cristão manifesta sua convicção de fé — especialmente um pastor — surgem tentativas de criminalização, constrangimento público ou judicialização da pregação", afirmou.

Ele disse ainda ser contrário a qualquer tipo de intolerância religiosa, em qualquer circunstância. "Liberdade de expressão não pode ser utilizada como escudo para a prática de desrespeito religioso. O Estado Democrático de Direito protege tanto a livre manifestação quanto a liberdade de crença, e uma não pode anular a outra", disse, ao afirmar que pretende adotar medidas judiciais cabíveis, acionando o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e o Ministério Público.

Para o pastor Lucas Veras, da Igreja Pentecostal da Ceilândia, a mensagem transmitida pelo desfile foi clara e ultrapassou o campo artístico, ofendendo as famílias conservadoras. "Quem assistiu ao desfile da escola de samba Acadêmicos de Niterói consegue entender muito bem a mensagem que a escola está trazendo, tanto no contexto político quanto religioso. O que mais me chamou a atenção foi a forma como a família foi colocada dentro de uma lata, sendo chamada de conservadora, como se ser conservador fosse algo ruim, arcaico ou negativo", afirmou.

Segundo ele, a crítica simbólica atingiu diretamente a estrutura familiar e a fé cristã. Ele considerou como discriminação,  agressão. "Não se trata apenas de religião A, B ou C. Ali se critica a família como base da sociedade. O pior é mostrar dentro daquela lata famílias felizes, pai, mãe e filhos, passando uma imagem ruim de algo que é bom. Isso é uma forma de discriminação religiosa, porque a fantasia traz Bíblia, cruz e símbolos cristãos para uma festa extremamente secular", concluiu.

Desgaste político

Para o sociólogo e professor do Programa de Pós-Graduação em Sociologia e Direito da Universidade Federal Fluminense (UFF) Ivan Alemão, houve um exagero na abordagem adotada pela escola de samba. Ele afirmou ter ficado surpreso com a crítica religiosa. "Acho que houve um certo exagero na temática, a partir do momento em que o desfile saiu atacando várias frentes. Inclusive, a questão dos evangélicos é muito problemática de ser abordada em uma escola de samba, algo que não é comum, ainda mais em ano eleitoral. É tudo o que o Lula não precisava", avaliou.

Segundo ele, o episódio dificilmente teria capacidade de gerar ganhos eleitorais para o presidente, mas cria um desgaste desnecessário. "É uma coisa que dificilmente convence alguém a votar em alguma pessoa, só porque foi homenageada por escola de samba. O problema é que isso acontece em ano eleitoral e acaba sendo comparado com precedentes, como o que ocorreu com o Bolsonaro. O Brasil vive um momento em que pode acontecer de tudo, com STF (Supremo Tribunal Federal), escândalos e até uma nova composição no TSE. Hoje, prever o que um juiz vai decidir é uma das coisas mais complicadas que existem", afirmou.

O professor também destacou que a crítica a símbolos religiosos foi o ponto mais sensível do desfile e acabou atingindo parte do próprio eleitorado do presidente. "Quando se faz crítica social, normalmente é à pobreza, à miséria, à fome. Nesse caso, acabou sendo uma crítica a uma religião, o que ofende as pessoas. Dentro do próprio PT há muita gente conservadora, o partido nasceu da igreja, do sindicalismo e da esquerda militante. Mais da metade da população brasileira é conservadora. Quando se toca nessa questão, você atinge uma parte do eleitorado do próprio Lula", completou.

Já o cientista político e professor do Departamento de Ciência Política da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) Jorge Chaloub defendeu cautela na avaliação dos efeitos eleitorais do episódio. "Eu acho que o primeiro ponto importante é ter prudência, porque vejo muitas análises definitivas sobre os efeitos disso na eleição, e é muito difícil cravar. Pode gerar algum desconforto, pode circular de forma negativa, mas não é algo simples ou automático", ponderou.

Chaloub ressaltou que o desfile não pode ser diretamente associado à campanha presidencial. "Uma escola homenageou o Lula, mas não foi a campanha do Lula que fez isso. Atribuir isso diretamente à esquerda não é uma passagem simples. Foi uma representação feita por uma escola de samba, que pode ser mobilizada politicamente, mas eu sou cético quanto à centralidade disso para os efeitos eleitorais", afirmou.

Para o professor, o impacto do episódio depende mais da disputa de narrativas e da capacidade política das campanhas do que do desfile em si. "Em tempos de muita circulação de discurso e fake news, você não precisa nem do fato concreto para criar a ideia de que a esquerda odeia os evangélicos. O que vai definir se isso circula mais ou menos é a capacidade da campanha do Lula e da esquerda de mostrar que têm relações com evangélicos, que valorizam a fé evangélica, cristã e todas as religiões", concluiu.