Trata-se de um tema polêmico. Quando a política instrumentaliza a religião com o objetivo de impor uma visão de mundo autoritária ou ditatorial, os resultados são nefastos. Basta observar os Estados totalitários governados por lideranças religiosas que, em nome de um “deus”, cometeram crimes e utilizaram o poder espiritual para perseguir opositores.
No entanto, é necessária uma reflexão mais profunda. Ao mesmo tempo em que não podemos defender o uso da religião como instrumento de poder — seja ele de qualquer origem —, também não podemos ignorar a importância dos valores cristãos na transformação da sociedade. A Igreja não tem partido, e isso precisa estar absolutamente claro. Quando qualquer segmento cristão abraça o partidarismo, perde sua voz profética, confunde a sociedade e atrai para si a rejeição do grupo político ao qual se associou, seja ele de esquerda ou de direita.
Isso, porém, não anula a relevância de se fazer política séria a partir dos pressupostos legados pela tradição judaico-cristã. Muitos dos direitos trabalhistas existentes hoje nasceram da influência de protestantes ingleses no período pós-Revolução Industrial, quando trabalhadores — inclusive crianças — eram explorados de forma cruel nas minas de carvão. Foi a atuação de líderes de origem protestante que impulsionou a criação de mecanismos para combater essas injustiças.
William Wilberforce, parlamentar inglês, dedicou sua vida à luta pela abolição da escravidão. Sua história é retratada no filme Amazing Grace, que mostra como foi influenciado por John Newton, ex-mercador de escravos que se converteu ao cristianismo e tornou-se clérigo anglicano.
Os Estados Unidos, uma das nações mais prósperas do planeta, carregam em sua história e cultura a forte influência do protestantismo. Perseguidos na Inglaterra, esses cristãos migraram para a América e contribuíram para a fundação de uma nação que se tornou referência democrática e um farol missionário para o mundo.
O conceito de Estado laico — frequentemente utilizado como argumento para excluir qualquer menção religiosa do debate político — não impede que cidadãos votem guiados por seus valores religiosos. A laicidade do Estado significa que o poder público não pode favorecer uma religião em detrimento de outra, mas não pode anular a cosmovisão cristã de líderes que, movidos por sua fé, atuam na política como instrumentos de justiça social.
Como bem afirmou Abraham Kuyper, “Cristo reina sobre todas as esferas da vida, mas não por meio da confusão entre elas”. A fé cristã não transforma a Igreja em partido político, nem exige que o Estado se torne religioso. Ela forma cidadãos conscientes, capazes de buscar justiça, verdade e o bem cAEomum diante de Deus e da sociedade. O Estado não é moralmente neutro: toda política nasce de uma visão de mundo.
Em ano eleitoral no Brasil, marcado por forte polarização, exige-se ainda mais sabedoria dos líderes evangélicos. Não podemos permitir que a Igreja se torne massa de manobra de qualquer segmento político. Devemos rejeitar, com veemência, todo tipo de “voto de cabresto” e qualquer tentativa de comprar a consciência política dos fiéis por meio de favores ou vantagens.
Por outro lado, não é sábio nos afastarmos do processo eleitoral, sob pena de permitir que pessoas inescrupulosas ocupem espaços de poder e promovam leis que afastem a sociedade dos valores defendidos na Palavra de Deus.
O equilíbrio é essencial. Não devemos transformar nossas igrejas em “puxadinhos” de partidos políticos, mas tampouco aceitar a narrativa de que evangélicos devem se restringir aos templos. Somos cidadãos, pagamos impostos e temos muito a contribuir com nossas cidades e com a nação.
Devemos ser prudentes como as pombas e astutos como as serpentes. A teologia do triunfalismo, que defende o domínio da Igreja sobre as esferas de poder, já se mostrou historicamente perigosa. Não estamos aqui para dominar nem para reinar, mas para servir. Como ensinou Jesus, devemos dar a César o que é de César e a Deus o que é de Deus. Tudo tem o seu lugar.
Que saibamos influenciar com sabedoria, sem jamais permitir que a Igreja seja usada como massa de manobra nas mãos de líderes políticos.
*Ruimar Fonseca: pastor, escritor e conferencista. Graduado em Direito e Teologia e Pós graduado em Aconselhamento Contemporâneo. Presidente da Ad Adet Missão Global e colunista do portal de notícias Agenda Capital.