Nelson Souza tomou posse, ontem, como presidente do Banco de Brasília (BRB). O governador Ibaneis Rocha realizou um ato simbólico no Palácio do Buriti, sem a presença da imprensa, reafirmando apoio político e institucional ao novo dirigente. O executivo chega ao comando do banco com a missão de conduzir investigações internas, fortalecer a governança e preservar a credibilidade da instituição em uma semana de intensa crise desencadeada pela Operação Compliance Zero, da Polícia Federal. Entre os principais desafios estão restaurar a confiança do mercado, revisar processos internos e garantir que o banco mantenha ritmo de crescimento sem comprometer padrões de integridade. Terá carta branca para formar a diretoria, segundo Ibaneis.
Na quinta-feira, presidente do Conselho de Administração, Marcelo Talarico, empossou Nelson Souza, que foi aprovado em sabatina pela Câmara Legislativa do Distrito Federal (CLDF) na última terça-feira. Ibaneis Rocha afirmou que o executivo chega em um momento determinante para o BRB. Segundo o governador, a escolha foi pautada pela experiência acumulada por Nelson ao longo de mais de quatro décadas no setor financeiro (Veja perfil). "Tenho convicção de que, à frente do BRB, ele vai conduzir as apurações do que está acontecendo e esclarecer para a população", disse.
No encontro de ontem, Nelson Souza agradeceu a confiança e destacou o compromisso com uma agenda de fortalecimento institucional. "Eu chego com a firme missão de, juntamente com mais de cinco mil empregados do BRB, continuarmos crescendo e fortalecendo essa grande instituição. Teremos alguns eixos a seguir, entre eles governança, pessoas e resultados — resultados comerciais, mas também no cuidado com os programas sociais", afirmou.
Indicado pelo governador no dia 19, Nelson passou por sabatina de quase três horas na Comissão de Economia, Orçamento e Finanças (Ceof) da CLDF. Respondeu a questionamentos sobre gestão, transparência e prioridade de políticas internas. No plenário, o nome dele foi aprovado por 16 votos a favor e seis contrários. A aprovação do Banco Central veio no dia seguinte, permitindo que o executivo assumisse oficialmente o cargo.
Para Ibaneis Rocha, a rapidez do aval do BC demonstra confiança na estabilidade financeira da instituição. "O BRB é um banco que tem liquidez — capacidade de cumprir suas obrigações financeiras —, que cresce a todo momento e que terá todo o nosso apoio. O Nelson tem total liberdade para montar o conselho de administração, o conselho fiscal e toda a diretoria", declarou.
Durante a sabatina na CLDF, Nelson reiterou que sua atuação prioriza o respeito e a valorização dos empregados. Ele também afirmou que revisará auditorias e operações em curso. "Se encontrar algo que precisa ser mudado ou revisado, com certeza será alterado", garantiu aos parlamentares, reforçando a linha de atuação voltada para ajustes internos e governança.
Professor de economia do Ibmec Brasília, Renan Silva avalia que as primeiras medidas da gestão devem mirar a recuperação da confiança do mercado e o restabelecimento da transparência nas operações. "É um cenário que exige foco intenso em compliance e governança, com monitoramento permanente das práticas financeiras para evitar novos eventos", ressaltou.
Para o economista, a reconstrução institucional deve incluir uma revisão profunda dos mecanismos de controle interno e das práticas de gestão de risco. "Será indispensável implementar um sistema robusto e sem conflitos de interesse, com comitês de auditoria e compliance independentes", disse.
Ele alerta, porém, que a relação historicamente próxima entre o BRB e o Governo do Distrito Federal pode ter efeito duplo: ao mesmo tempo em que facilita alinhamento administrativo, também abre espaço para interferências políticas em decisões que deveriam ser técnicas. "Manter essa relação sem comprometer a integridade da instituição será vital para atravessar a crise e garantir sustentabilidade futura", afirmou.
Enquanto os ajustes são feitos para o início das atividades do novo presidente do BRB, o ex-dirigente da instituição Paulo Henrique Costa prestará depoimento à Polícia Federal (PF) na segunda-feira, às 14h. A oitiva ocorrerá na superintendência da corporação, em Brasília, sobre o envolvimento de PHC nas operações de compra de carteiras de crédito falsas do Banco Master, que estão sob investigação.
O anúncio foi feito após o advogado de Paulo Henrique, Cleber Lopes, comparecer à sede da PF na última segunda-feira, conforme apurado pela jornalista Ana Maria Campos e publicado na coluna CB.Poder, do Correio. No encontro, ele entregou o passaporte, um telefone celular e um computador — todos com senha — pertencentes ao ex-presidente, atendendo às determinações judiciais.
A defesa de Paulo Henrique nega irregularidades e afirma que todas as operações questionadas seguiram os padrões do sistema financeiro. Segundo o advogado, o ex-presidente pretende esclarecer as transações durante o depoimento. "Muitas vezes, esse tipo de operação não é compreendida por quem não é do sistema financeiro", argumentou.
A Operação Compliance Zero foi realizada pela PF na semana passada. A ação investiga um esquema de fraudes envolvendo o Banco Master. O controlador da instituição, Daniel Vorcaro, foi preso, quando tentava embarcar em um jatinho rumo ao exterior. Os desdobramentos da investigação atingiram diretamente o BRB. O banco público do DF adquiriu R$ 12,2 bilhões em títulos inexistentes do Master — operação que o Banco Central classificou como temerária.
A tribulação também foi alimentada pela tentativa do BRB, no início do ano, de adquirir o controle do Master por cerca de R$ 2 bilhões. O negócio foi vetado pelo Banco Central em setembro, por risco de incorporar ativos problemáticos que comprometeriam a saúde financeira da instituição de Brasília. O veto contribuiu para o avanço das apurações que resultaram na operação policial.
A partir dessa constatação, o BC encaminhou documentos ao Ministério Público Federal, que acionou a Polícia Federal para aprofundar o caso. A investigação levou ao afastamento de Paulo Henrique da presidência do BRB por 60 dias, por decisão da Justiça Federal, no âmbito da operação. Pouco depois, ele foi demitido por Ibaneis Rocha.
Agora, o Banco Central terá 20 dias para concluir uma auditoria minuciosa das operações realizadas pelo BRB em 2025 e 60 dias para examinar as transações de 2024. Serão analisadas operações com indícios de fraude envolvendo o Banco Master, ativos oferecidos como garantia e outras eventuais irregularidades que venham a ser identificadas durante o processo.
O BRB e o Banco Central também foram oficiados a cumprir imediatamente a decisão, enquanto as provas da investigação serão compartilhadas com o Ministério Público Federal (MPF) e com o Ministério Público do Distrito Federal e Territórios (MPDFT), que poderão adotar medidas cíveis e administrativas de responsabilização.
Com mais de 45 anos de carreira no setor financeiro, Nelson Antônio de Souza é servidor de carreira da Caixa Econômica Federal, onde ingressou por concurso em 1979. No banco, ocupou cargos estratégicos, entre eles o de vice-presidente de Habitação, até assumir a presidência da Caixa em 2018. Conduziu ainda o Banco do Nordeste (BNB), a Desenvolve SP e a BrasilCap. Mais recentemente, era vice-presidente da Elo.
Nascido em São Paulo e morador do DF desde 2003, Nelson é graduado em letras e psicologia, com MBAs em administração, marketing e consultoria empresarial. Começou no setor ainda adolescente, como menor aprendiz do Banco do Brasil. Sua reputação é marcada pelo perfil técnico, pela defesa de práticas de governança e pela busca por eficiência operacional. No discurso de posse, reafirmou que o objetivo é reforçar a gestão técnica e fortalecer a reputação do banco.
O presidente da Câmara Legislativa, Wellington Luiz (MDB), afirmou que a aprovação de Nelson Antônio de Souza para comandar o BRB foi guiada pela necessidade de estabilidade em meio à crise. "A decisão foi baseada na experiência comprovada, na capacidade de liderança e no compromisso com governança e transparência", disse. Ele destacou que a relação entre o novo presidente e o GDF deve permanecer "estritamente institucional".
O deputado Chico Vigilante (PT) disse que Souza chega ao cargo com a missão de "salvar o BRB", responsabilidade que, segundo ele, foi repassada pelo próprio Banco Central. Vigilante destacou que o executivo garantiu autonomia total para investigar eventuais irregularidades. Para o petista, Nelson está "à altura da missão". O deputado voltou a defender a abertura de uma CPI para investigar as operações entre o BRB e o Banco Master. "Esse é o maior escândalo da história do DF", afirmou.
O deputado Hermeto (MDB), líder do governo na CLDF também demonstrou confiança no novo presidente da instituição, classificando Souza como um profissional "preparado, com passagem por vários bancos e experiência comprovada", incluindo o período em que presidiu a Caixa Econômica Federal em 2018, no governo Michel Temer. Ao contrário de Chico, Hermeto criticou a tentativa de abertura de uma CPI, chamando o movimento de "puro oportunismo político" e "trampolim eleitoral".
Fonte: BRB